segunda-feira, 24 de setembro de 2012

AS QUEIXAS DO BENFICA


EMPATE EM COIMBRA
Académica vs Benfica (LUSA)


Antes de mais é importante que se diga que é objectivamente positivo que um árbitro, no campeonato português, tenha a coragem de marcar no mesmo jogo dois penalties contra um “grande”, desde que, obviamente, haja razões para crer que as faltas que os determinam existiram mesmo.
 
Puxando o filme atrás. O ano passado o Sporting fez uma barulheira incrível por Bruno Paixão lhe ter assinalado dois penalties seguidos no jogo contra o Rio Ave. Teria sido ridículo se subjacente àquela falsa indignação não estivesse presente a ideia de que nenhum árbitro em Portugal tem o direito de fazer isso ao Sporting. Os penalties, como todos se recordarão, foram bem assinalados, embora relativamente ao primeiro, depois de muitas visualizações, se pudesse suscitar a dúvida se a falta foi cometida dentro ou fora da área.
 
Ontem aconteceu algo de sensivelmente idêntico. O Benfica também não aceitou os penalties de Carlos Xistra marcados contra si, mas já considera indiscutível (e foi) o que puniu a Académica, bem como a sanção aplicada ao jogador infractor (aceitável, mas discutível).
 
 
No jogo de ontem é até possível que nenhuma das duas faltas assinaladas contra o Benfica causadoras de duas grandes penalidades fosse merecedora daquele castigo máximo. É possível, mas não é óbvio. No lance que originou a primeira grande penalidade Maxi Pereira comete indiscutivelmente falta sobre o avançado da Académica. É um lance muito rápido que se desenrola quase sobre o risco da área. Com a imagem parada percebe-se que a falta se inicia fora da área, mas a dúvida é legítima. No segundo lance, Garay corta a bola legalmente, mas depois propositadamente ou não impede a passagem do avançado da Académica que tenta furar por onde manifestamente não cabia. Este parece um lance que suscita menos dúvidas que o anterior, mas vendo-o à velocidade normal é legítima a dúvida sobre a sua legalidade. Portanto, tem de se aceitar a decisão do árbitro, se a interpretação que ele fez do lance o leva a concluir pela existência da falta máxima.
 
A polémica à volta destes penalties surge, diga-se o que se disser, não por eles terem sido marcados nas condições que o foram, mas por haver na maior parte das pessoas a convicção segura de que em caso algum idêntica ou semelhante situação teria o mesmo desfecho contra o F. C. do Porto. Esse é que é o problema. E é um problema grave. É capaz, um árbitro português, num jogo de campeonato, de marcar contra o FCP dois penalties nas mesmas condições em que ocorreram os de Coimbra ou nas condições em que ocorreram os de Vila do Conde no jogo do Sporting? Mais de oitenta por cento dos inquiridos diria não sem hesitar! E enquanto esta situação existir – e ela existe – o futebol português continuará inquinado de suspeição. Com a agravante de nunca se provar nada, mesmo quando se “ouvem” os prevaricadores a cometerem o delito!
 
No que toca ao jogo de Coimbra, o Benfica tem de se queixar de si próprio. É inadmissível falhar situações de golo feito como as que o Benfica falhou na primeira parte. É também claro que o Benfica está mais fraco. Mais fraco e mais inseguro, depois das transferências (inevitáveis) do mercado de Verão. Dois empates em quatro jogos não auguram nada de bom…
 
O jogo terminou com o empate a duas bolas, as da Académica na conversão de duas grandes penalidades, como já se deixou dito, e as do Benfica na conversão de um penalty por Cardozo, depois de mão na bola de Galo, e o segundo golo a quatro minutos do fim num "tiro" de fora da área de Lima, que se estreou (oficialmente) a jogar e a marcar.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A LIGA DOS CAMPEÕES (CONT.)


A SEGUNDA PARTE DA PRIMEIRA JORNADA

 

No segundo dia da primeira jornada da Liga dos Campeões, o Benfica empatou na Escócia contra o Celtic de Glasgow a zero. Pela primeira vez em quatro jogos contra o Celtic, na Escócia, o Benfica não perdeu, mas também ainda não foi desta que ganhou. E todavia nunca o Benfica havia defrontado um Celtic tão fraco como o de ontem à noite.

Sobre a equipa do Benfica pairava a enorme expectativa de saber como é que ela se comportava depois das saídas de Javi Garcia, Witsel e Saviola (que, em princípio, já não voltam mais) e com as ausências forçadas de Maxi e de Luisão, ambos por castigo. Foi evidente para toda a gente que a equipa se ressentiu, e muito, das ausências de Javi e de Witsel, com as quais tem de passar a conviver, mas também com as de Maxi e Luisão, porventura mais com a do primeiro do que com a do segundo. No que toca a Saviola, verdadeiramente só jogou com regularidade no Benfica no seu primeiro ano. E o resultado viu-se: Saviola foi o segundo melhor marcados da equipa e o Benfica foi campeão. Coincidência ou não, depois de Saviola ter perdido a titularidade nunca mais o Benfica competiu, a sério, pela conquista do título. Saviola parece estar a querer repetir no Málaga a sua primeira época no Benfica.

Diz a crítica que o Benfica, ontem, jogou bem na defesa e falhou no ataque. Não se pode dizer que tenha jogado bem na defesa contra uma equipa que, apesar de muito voluntariosa, nunca criou problemas. E também não se pode dizer que se não sentiu a falta do labor atacante de Maxi, porque sentiu, e muito, por acertadamente que o jovem André tenha estado. No meio da defesa, Jardel não comprometeu, mas não dá a mesmo segurança de Luisão. Enfim, a defesa fez o que lhe competia a defender – não deixou marcar golos – mas ficou muito aquém do que poderia fazer na ajuda ao ataque. E, no meio campo, Matic não é Javi nem Enzo Perez é Witsel. Mas este é assunto sobre o qual não adianta tecer grandes considerações porque o Benfica vai ter de jogar com os jogadores que lá tem e não com os que vendeu.

Na frente a decepção não poderia ser maior. Nem Salvio esteve á altura do que já fez nos três jogos do campeonato, nem Rodrigo, muito desamparado, deixou a ideia de que possa jogar tão desacompanhado. Aimar jogou muito longe da frente e Gaitan perdeu-se em individualismos e na hora de rematar, na única oportunidade de que dispôs, atirou contra as pernas do adversário.

Cardozo, Bruno, César e Nolito que entraram no decorrer do jogo para a substituição, respectivamente, de Aimar, Rodrigo e Gaitan também não acrescentaram nada, embora Bruno César seja um jogador com que o Benfica tem de contar em todos os jogos.

E foi assim num jogo muito enfadonho, sem emoção, pobre e triste que o Benfica evitou pela primeira vez a derrota na Escócia, o qual por essas mesmas razões também impediu que o Benfica de lá tivesse saído vitorioso pela primeira vez.

No outro jogo do grupo, o Barcelona teve de recorrer ao melhor Messi para levar de vencida um jogo em que esteve a perder por 2-1. A reviravolta no resultado (3-2) aconteceu, mais uma vez, por obra de Messi. Parece que este Barcelona de Tito Villanova tem de recorrer muito mais que o anterior ao talento individual de Messi para resolver problemas que o colectivo não soluciona.

O Spartak de Moscovo, pelo menos no jogo de ontem, demonstrou ser uma equipa difícil, daí que o empate do Benfica em Glasgow não seja, ao contrário do que diz Jorge Jesus, um bom resultado.

Nos demais jogos, o Chelsea empatou a dois com a Juventus, apesar da excelente exibição de Óscar; o Shakhtar Donetz ganhou naturalmente ao Nordsjaelland por 2-0; o Bate Borisov ganhou em Lille por 3-1; o Bayern ganhou em Munique, como lhe competia, ao Valencia por 2-1; e, finalmente, no grupo H, o Cluj derrotou surpreendentemente o Braga na Pedreira por 2-0; e o Manchester United ganhou em casa ao Galatasaray por 1-0.

 

A LIGA DOS CAMPEÕES


 

A PRIMEIRA PARTE DA PRIMEIRA JORNADA

 

Depois de quase vinte dias sem futebol de clubes, o futebol regressou na passada terça-feira com o começo da primeira jornada da Liga dos Campeões.

O Porto estreou-se a ganhar contra uma equipa fraca – Dínamo de Zagreb – num jogo onde não se sentiu a falta de Hulk tal foi o domínio exercido sobre a equipa croata. Na Liga dos Campeões, não obstante o nome, há sempre equipas fracas, às vezes em vários grupos e não apenas num, consistindo o mérito de quem participa na prova em ganhar a essas equipas tanto fora como em casa. Foi o que o Porto fez. Portanto, a sua prestação foi irrepreensível.

Na terça-feira o jogo mais emotivo foi sem dúvida o que em Santiago de Bernabéu pôs frente aa frente o Real Madrid, campeão de Espanha, e o Manchester City, campeão de Inglaterra. A primeira parte foi quase toda do Real Madrid que até conseguiu, desta vez, superar as tradicionais dificuldades atacantes quando joga contra equipas que tendem a ter os dez jogadores atrás da linha da bola. Não que durante esse período tenha marcado qualquer golo, mas porque conseguiu, contra o que é habitual, rematar com perigo por várias vezes às redes de Hart – um excelente guarda-redes – quase sempre de fora da área. Se na primeira parte o domínio do jogo pertenceu indiscutivelmente ao Real não é menos verdade que, na segunda parte, as coisas mudaram e poderiam mesmo ter terminado em catástrofe para Mourinho se os deuses da fortuna não tivessem estado mais uma vez pelo seu lado. Depois de ter rondado a baliza madrilista com perigo, quase sempre mediante iniciativas desse extraordinário Yaya Touré, o City acabou por marcar por Dzeko fazendo jus ao domínio que a equipa vinha exercendo.

Só que o Real Madrid também tem nas suas fileiras dos melhores jogadores do mundo. E um deles é Marcelo, esse fantástico lateral esquerdo, a cuja técnica e grande classe de execução se deve o empate. Quando o jogo se aproximava do seu fim, com o City sempre mais perigoso, a equipa inglesa desempatou de livre eximiamente marcado por Kolariov aparentemente com culpas para a defesa adversária, embora ao mais alto nível haja cada vez mais golos como o de Kolarov. Um golo que se supunha ter decidido a partida. Faltavam cinco minutos para o fim do jogo. Com o Real por baixo e a perder antevia-se um tempo muito difícil para Mourinho, tanto dentro da equipa, como fora. Mas os deuses têm um pacto com o homem de Setúbal. Dois minutos depois Benzema rodou sobre si próprio e sobre os adversários que o marcavam e conseguiu à entrada da área descortinar um espaço por onde a bola iria passar em direcção ao golo. Com as duas equipas a querer ganhar o jogo, apesar de se estar a jogar já o tempo de compensação, foi o Real Madrid a equipa mais feliz. Ronaldo do lado esquerdo do seu ataque flectiu ligeiramente para dentro e da esquina da área rematou com força e quase à figura do guarda-redes. Acontece que o defesa do City (Kompany) que estava entre ele e o seu guarda-redes por receio ou para deixar passar a bola na direcção de Hart encolheu-se (agachou-se) e a bola, passando sobre a sua cabeça, a meia-altura, acabou por enganar o guarda-redes. Foi o delírio em Chamartin. Mourinho suspirou de alívio e extravasou a sua ansiedade festejando o golo como se tivesse sido ele a marcá-lo. Com esta vitória ninguém mais se lembrou nem quis saber dos motivos por que Sérgio Ramos não jogou. O ambiente mantém-se tenso, mas para já Mourinho conseguiu adiar ou mesmo eliminar (adiante se verá) o que se estava a antever…

Nos demais jogos o que há de mais saliente é a vitória do Málaga por 3-0 sobre o Zénite, que alinhou com Hulk e com Bruno Alves, mas sem Witsel. Saviola, em grande forma, voltou a marcar. Quanto ao resto – vitória do PSG sobre o Dínamo de Kiev (4-1); do Borússia Dortmund sobre o Ajax (1-0); do Arsenal em Montpellier (1-2); do Schalke 04 em Atenas sobre o Olympiacos (1-2) - quase tudo normal, salvo o empate em casa do Milan com o Anderlecht (0-0).

domingo, 9 de setembro de 2012

TRISTE VITÓRIA DA SELECÇÃO


ASSIM NÃO VÃO LÁ
 

A selecção portuguesa derrotou, penosamente, os amadores do Luxemburgo pela diferença mínima (2-1).
 
Num jogo marcado pela “tristeza de Cristiano Ronaldo”, o ególatra que ganha num ano o que milhões e milhões de portugueses nunca ganhariam em várias vidas, a selecção ressentiu-se, como não poderia deixar de ser, da ausência de uma voz que tivesse sabido pôr termo, com as palavras justas, a essa inacreditável farsa do rapaz da Madeira.
 
Em campo, a selecção foi uma triste sombra daquela que jogou as últimas partidas do Europeu. Apostando no mesmo alinhamento, Paulo Bento não conseguiu que os jogadores interiorizassem a importância do jogo que estavam a jogar. Um jogo que, só por um triz, não traiu logo à partida as esperanças de estar presente no Brasil em 2014.
 
Contrariamente ao que os jogadores parecem supor, o grupo de Portugal não vai ser um passeio fácil até às terras de Vera Cruz. A Rússia será o adversário certamente mais perigoso, um adversário que vai levantar muitas dificuldades em casa, mas seria errado desprezar ou menosprezar os demais parceiros do grupo, nomeadamente Israel, que é sempre um adversário temível tanto em casa como fora.
 
Veremos terça-feira como tudo evoluirá.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O FUTEBOL NACIONAL E AS TRANSFERÊNCIAS


HULK E WITSEL NA RÚSSIA


Enquanto o Benfica e o Porto com mais ou menos dificuldade vão assumindo a liderança da Liga, com duas vitórias e um empate, distanciando-se do Braga e do Sporting, este com um jogo em atraso, os adeptos das duas equipas vão ficando seriamente apreensivos com a consistência dos respectivos plantéis, principalmente no que toca à sua competitividade na prova máxima do futebol europeu.
 
O Benfica partiu para esta época com um plantel invejável, recheado de grandes jogadores em quase todos os sectores, salvo porventura no lado esquerdo da defesa, o que, em seu tempo, levou o presidente a afirmar que o Benfica iniciaria a época com um dos mais talentosos plantéis da sua história, capaz de causar inveja a qualquer grande europeu.
 
De então para cá, o Benfica, referindo apenas as grandes vedetas, perdeu Saviola para o Málaga, Javi para o Manchester City e Witsel para o Zénite. Ou seja, de um momento para o outro ficou sem os dois mais consistentes jogadores do meio campo, agora reduzido a Matic, Carlos Martins e Aimar. Pouco, muto pouco para uma época em várias frentes. Mas não só. Na defesa, para além de Maxi, Luisão, Garay e o adaptado Melgarejo, o Benfica pouco mais tem. Ou melhor: não tem rigorosamente ninguém capaz de se assemelhar a qualquer um dos quatro titulares. Em contrapartida, na frente, principalmente nas alas, tem extremos que davam para duas equipas. No centro, incluindo o segundo ponta de lança, tem Cardozo, Lima e Rodrigo. Portanto, um plantel muito desequilibrado com poucas hipóteses na Europa, onde acima de tudo conta, como se sabe, a consistência e a solidez sectorial e com as hipóteses em Portugal condicionadas à competitividade do Porto, do Braga e do Sporting, bem como à real valia das demais equipas, o que é ainda cedo para se avaliar.
 
O Porto apenas perdeu Hulk, o que é muito, mas bem menos do que poderia ter perdido. A falta de Hulk, tão como a de Falcao no ano passado, é insuprível no quadro das disponibilidades do respectivo plantel. Por mais falta que Hulk venha a fazer – e vai certamente fazer muita falta – o Porto fica mesmo assim mais equilibrado do que o Benfica. Fica com uma baixa de vulto na frente internacional e talvez com uma baixa menos notada na frente interna.
 
Hulk acabou por ser vendido por um preço (40 milhões) bem inferior ao que Pinto da Costa apregoava como indispensável para começo de conversa. Mesmo assim foi bem vendido. Nenhum clube na Europa ocidental daria esse dinheiro por ele.
 
No que toca ao Benfica, Javi terá sido transferido pelo preço justo (20milhões) enquanto Witsel foi vendido por um preço (40 milhões) somente ao alcance de quem não dá qualquer valor ao dinheiro…por não ter tido qualquer trabalho em “ganhá-lo”. De facto, somente os oligarcas russos que se apoderaram dos bens do povo na famigerada gestão Yeltsin ou a camarilha árabe do petróleo podem pagar as verbas por que estão sendo comprados os jogadores este ano transferidos para os clubes de que são proprietários.
 
Do ponto de vista dos clubes portugueses não havia como declinar tais propostas por mais nocivas que elas venham a revelar-se no plano desportivo.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

COITADO DO CRISTIANO RONALDO


 
TÃO DEPRIMIDO NAS SENSAÇÕES!
 
É óbvio que Cristiano Ronaldo não faz a menor ideia de quem é “Álvaro de Campos”. Nem como profissional de futebol, que veio para Lisboa com onze anos de idade para “aprender” na escola do Sporting, tinha que o saber.
Mas como craque de futebol universalmente conhecido, que ganha e gasta rios de dinheiro, poderia ter reservado uma pequenina parcela para a aprendizagem de boas maneiras desportivas e sociais em geral. Coisas como, por exemplo: saber como dirigir-se a pessoas que exercem funções representativas de relevo por decisão democrática da comunidade; referir-se publicamente a colegas de profissão, sejam seus companheiros de equipa ou não; felicitar, ou simplesmente cumprimentar, os adversários a quem por mérito próprio – e também por decisão democrática, posto que restrita – foram atribuídos prémios desportivos; enfim, comemorar com os colegas de equipa os feitos por estes cometidos na equipa a que pertence e não apresentar-se publicamente como o centro do mundo, um ególatra, possuído de um egoísmo desmedido e de uma auto-idolatria desportivamente estúpida.
É óbvio que quem assim se comporta perante colegas com personalidade não pode esperar deles amizade nem admiração pessoal. Podem reconhecer-lhe os méritos técnicos e as suas capacidades desportivas, mas detestam-no pessoalmente. E isso é absolutamente normal. Como também é absolutamente normal no futebol o contrário. Ou seja, um indivíduo sem grandes qualidades humanas fora do campo ter no relvado e nas atitudes associadas ao fenómeno desportivo um comportamento exemplarmente solidário e altruísta. Podem os colegas não conviver com ele fora do fenómeno do futebol mas no campo, e em tudo o que a ele estiver ligado, ele poderá sempre contar com a solidariedade e com o apoio sem reticências de todos os colegas.
Portanto, é perfeitamente natural que o comportamento de Ronaldo não gere na equipa em que está integrado relações de solidariedade, assim como também é perfeitamente natural que os espanhóis do Real Madrid tenham uma relação de sadia camaradagem e até de profunda amizade com os espanhóis do Barcelona forjada em anos e anos de camaradagem nas selecções de Espanha. Mourinho quis fazer de cada adversário forte um inimigo perigoso a abater; Ronaldo quer que os colegas de equipa, nomeadamente - mas não só - os espanhóis do Real Madrid, não tenham hesitações na escolha entre ele e os seus "inimigos pessoais" como melhor jogador do mundo, da Europa ou seja lá do que for. "Inimigos" cujo crime consiste em repartirem com ele o talento para jogar futebol.
Em conclusão, Ronaldo socialmente falando não é exemplo para ninguém no plano desportivo. Não se trata de ser mau profissional no apuramento das suas qualidades exclusivamente futebolísticas. Nada disso. Trata-se do seu relacionamento com as pessoas, desde logo com os colegas de profissão, como desportista. Provavelmente na sua ignorância sociológica Ronaldo apreciará instintivamente os servos, mas rejeitará os pares. E quem não aceita os pares não pode esperar deles reconhecimento.
É apenas isto o que se passa com Ronaldo e nada mais. Explicações baseadas na xenofobia, no anti portuguesismo e outras tonteiras do género não fazem neste caso o menor sentido nem têm qualquer capacidade explicativa. O problema não tem nada a ver com a nacionalidade, mas apenas e só com a personalidade...

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

ANDRÉS INIESTA, O MELHOR DA UEFA


 

UM PRÉMIO MAIS QUE MERECIDO
Andrés Iniesta, Mejor Jugador de la UEFA
 

 

Iniesta, o excelente jogador do Barcelona e da selecção espanhola, ganhou hoje à tarde o prémio de melhor jogador da UEFA. Votado por 53 jornalistas, representativos das federações europeias, Iniesta sucede a Messi neste novel prémio, numa vitória porventura indiciadora de uma nova consagração lá mais para o fim do ano.

A atribuição a Iniesta do prémio de melhor jogador da UEFA é justíssima. Iniesta tem sido ao longo destas últimas épocas um nome incontornável no Barcelona e na selecção espanhola. Para além das suas exibições, da sua classe, o prémio também simboliza e homenageia a valia do jogador espanhol. A Espanha foi como se sabe consecutivamente campeã da Europa, do Mundo e da Europa; compreender-se-ia mal que não houvesse um jogador espanhol premiado. A vitória de Iniesta por essa razão é também a vitória dos jogadores espanhóis do Real Madrid e do Barcelona, bem dos demais que, jogando noutras equipas, têm dado o seu contributo à selecção nos últimos anos.
Para ganhar Iniesta teve de vencer o insuperável Messi, que o ano passado marcou mais de 50 golos, mas não ganhou o campeonato nem a Liga dos Campeões e o mediático Cristiano Ronaldo, que ganhou o campeonato espanhol, marcou igualmente muitos golos, mas menos que Messi, e que não teve uma prestação excepcional no Europeu.

Iniesta é, além do mais, a anti-estrela, a negação da vedeta moderna. Ele exibe-se no campo e não nas redes sociais, nem tão-pouco tem ao seu serviço um poderosíssimo serviço de marketing. É um rapaz modesto e simples que não procura a ribalta nem se prevalece da sua grande classe para permanentemente se pôr em bicos de pés. Daí que a sua vitória seja unanimente saudada pelos adeptos do futebol em todo o mundo.
É uma vitória justa e merecida. Parabéns Iniesta!

MOURINHO FINALMENTE VENCEU O BARÇA EM CASA




 

REAL MADRID GANHA A SUPERTAÇA
 
El Barça ha salido derrotado en el Bernabéu
 

Depois de dias muitos tensos no balneário do Real Madrid na sequência da derrota contra o Getafe, Mourinho pôde finalmente experimentar o gosto da vitória contra o Barça no Santiago de Bernabéu onde nunca havia vencido o rival que ensombra os seus pesadelos.

Foi difícil ver o jogo na Sport TV. Primeiro, porque as transmissões espanholas não são como as inglesas – em Espanha o que se passa no campo, passa-se lá muito longe, tão longe como se o espectador estivesse no estádio no lugar mais distante do relvado – e depois, porque o comentador daquela estação televisiva não deixa ver o jogo – perturba o espectador com a sua interminável conversa e o seu conhecido facciosismo. Quando se poderá ver em Portugal um jogo de futebol apenas com o som ambiente? Ver o jogo em casa sem ser perturbado pelos comentadores?

O Real Madrid começou arrasador. Jogando largo, com passes compridos para explorar as correrias de Ronaldo, Mourinho pôde assim surpreender Vilanova por duas vezes antes dos primeiros vinte minutos de jogo – uma por Higuain, a passe longo de Pepe e erro clamoroso de Mascherano, outra por Ronaldo numa admirável faena sobre Piqué, também na sequência de um passe longo.

Depois do 2-0 o Real continuou no mesmo ritmo até à expulsão de Adriano aos 27 minutos. O Barça estava aturdido com o jogo do adversário que poderia ter sentenciado a partida um pouco depois, aos 31 m, por Khedira. Mas Valdés estava lá. Higuain ainda voltou a falhar logo a seguir e por aí se ficou a prestação dos madrilenos.

Alex foi substituído por Montoya para colmatar a saída de Adriano e o Barça começou a recompor-se. Antes do fim da primeira parte Messi, num livre à entrada da área, reduziu para 1-2 num excelente golo.

Na segunda parte só houve Barcelona. Com dez elementos em campo, o Barcelona mandou no jogo e encheu o campo. Por várias vezes o empate esteve à vista, mas no frente a frente com Pedro, Tello, Montoya e Jordi Alba, Casillas levou sempre a melhor assegurando com a sua grande classe a vitória do Real Madrid.

Perto do fim do jogo, depois de um intenso domínio do Barça durante toda a segunda parte, Ronaldo e Modric tiveram o terceiro golo nos pés, mas Valdés evitou o golo. Mesmo no fim do jogo, na última jogada, Messi inventou um espaço à entrada da superpovoada área do Madrid, mas a bola saiu ao lado.

A vitória de ontem é para Mourinho uma vitória importante, embora dos quatro títulos em jogo esta época este seja o menos valioso. Nos confrontos com o Barcelona, Mourinho, como treinador do RM, ganhou pela terceira vez um título – Taça de Espanha, Campeonato e Supertaça, por esta ordem – e venceu pela primeira vez no Santiago de Bernabéu o grande rival. Com a de ontem, Mourinho, no RM, soma três vitórias sobre o Barça - todas lhe garantindo um título - muitas derrotas, alguns empates e vários títulos perdidos.

Com uma equipa recheada de supercraques, com um banco tão valioso como os que estão em campo, Mourinho tem tudo para fazer uma grande época. Se não a fizer com estes jogadores, quando aa fará?

 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

BRAGA NA LIGA DOS CAMPEÕES


 

GRANDE VITÓRIA EM UDINE

 

Depois do empate em casa por 1-1, o Braga repetiu o mesmo resultado em Udine, vencendo a eliminatória nas grandes penalidades. Mais uma vez o Braga demonstrou ser hoje uma grande equipa com capacidade para se bater contra qualquer equipa europeia em qualquer campo.

No cômputo dos dois jogos o Braga foi superior aos italianos não tendo, por isso, a passagem à fase de grupos nada de surpreendente dado o valor da equipa. O Braga é hoje a melhor equipa portuguesa, a que pratica melhor futebol, a que circula melhor a bola, a que tem o futebol mais atraente. Com um lote de jogadores de grande valia, o Braga vale sobretudo pelo conjunto.

Se nada de extraordinário se passar o Braga vai ter estre ano condições para lutar de igual para igual com o Porto e o Benfica pela conquista do título. Com o mercado quase a fechar nenhuma equipa tem o plantel estabilizado, mas não será ousado afirmar que das três melhores equipas portuguesas o Braga será certamente o que menos sofrerá com eventuais oscilações do plantel, exactamente por o seu valor assentar mais no conjunto do que nas individualidades que o compõem.

O mesmo não poderão dizer o Porto e o Benfica, principalmente o Benfica, que corre o risco de ficar profundamente desequilibrado com a saída de alguns jogadores chave.

Entretanto, enquanto Braga, Porto e Benfica se vão preparando para a disputa da liga nacional e da dos campeões, o Sporting vai-se penosamente arrastando no campeonato, onde só fez um ponto e onde ainda não marcou um único golo, e vai lutando para permanecer da Liga Europa contra uma equipa de semi-amadores dinamarqueses.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

BENFICA ARRASA SETÚBAL


 

UMA VITÓRIA EXPRESSIVA E INDISCUTÍVEL

 

O Benfica arrasou ontem o Vitória de Setúbal no Bonfim por cinco a zero. O Vitória começou agressivo, a raiar a violência, com a nítida intenção de intimidar os jogadores do Benfica. Até ao segundo golo do Benfica todas as bolas divididas bem como as jogadas perdidas eram seguidas de faltas. Se passava o jogador não passava a bola. Numa competição internacional uma equipa que entrasse a jogar como ontem fez o Setúbal rapidamente ficaria reduzida a dez unidades e depois a nove até “acalmar”. Sabe-se por experiência que esta forma de jogar conta em Portugal com a complacência dos árbitros. E sabe-se também que as equipas de José Mota usam e abusam deste expediente.

Ontem, Jorge de Sousa fugiu à regra. Para evitar dúvidas puniu como devia uma entrada violente de Amoreirinha logo no início do jogo. Os portugueses não estão habituados a isto. “Se fosse aos 70 minutos ainda se compreenderia, dizem, mas aos 7 é inadmissível”. Inadmissível é que se digam coisas destas. Amoreirinha foi muito bem expulso. Mal teria andado o árbitro se o não fizesse.

Não há qualquer semelhança entre a jogada violenta sobre Melgarejo e o cartão amarelo a Luisão. A falta de Luisão é uma falta vulgar. Uma falta que noutras condições – isto é, se não houvesse um jogador expulso da equipa adversária – nem amarelo teria tido.

É igualmente inamissível que se conteste o primeiro golo do Benfica com base num pretenso fora de jogo de Melgarejo. O paraguaio está em linha com o penúltimo defesa setubalense. E mesmo que estivesse à sua frente cinco ou dez centímetros, a jogada continuaria ser “legal”, já que a FIFA ordena que, em caso de dúvida, se interprete a norma no sentido mais favorável a quem ataca.

Portanto, e para finalizar esta parte, o Setúbal, ou melhor, José Mota, só tem de se queixar de si próprio e do modo como concebeu a recepção ao Benfica. O mesmo se diga do presidente vitoriano a quem claramente faltam créditos para se pronunciar sobre o Benfica. O seu anti-benfiquismo primário retira-lhe qualquer legitimidade.

A expressiva vitória benfiquista não é, porém, concludente sobre a verdadeira valia da equipa. Certamente que Sávio é um fantástico jogador – rende muito mais no Benfica do que no Atlético de Madrid -, que Rodrigo promete fazer uma grande época, que Enzo Pres parece finalmente integrado e que a maior parte dos restantes, dos que já deram provas, parece estar à altura das circunstâncias.  É verdade tudo isso, mas também é verdade que o Benfica pode nos quatro dias que faltam para acabar o mês ficar muito desequilibrado se certos jogadores saírem.
Fala-se da saída de Javi para o M. City, de Witsel, de Garay, além de Cardozo e de Gaitan. Javi e Witsel não podem sair ambos, seria o descalabro do meio campo defensivo. A ausência de Javi seria porventura mais difícil de colmatar que a de Witsel. O Benfica ficaria muito desequilibrado com a sua saída. E de Garay nem se fala. Sem Garay na defesa o Benfica não teria qualquer hipótese de competir sequer a nível interno, quanto mais internacionalmente. Tanto mais que Luisão, além de muito provavelmente vir a ser castigado, está na curva descendente da sua carreira. Uma curva que será muito acentuada como no decorrer da época se verá…

Quanto ao grande motivo de polémica da jornada passada – Melgarejo – o jogo de ontem não trouxe nada de muito novo. É certo que Melgarejo está na origem da expulsão de Amoreirinha e do primeiro golo do Benfica. São aspectos positivos, mas que não devem ser exageradamente encarecidos. O adversário era fraco e o problema de Melgarejo a defesa esquerdo só se evidencia, como é óbvio, com equipas fortes. Portanto, o jogo de ontem não deu para tirar dúvidas. Mas dúvidas parece também não haver quanto à titularidade de Melgarejo. É um excelente jogador sem rival, neste momento, na ala esquerda dianteira do Benfica. Por outras palavras, a venda, a bom preço, de Gaitan seria um bom negócio sem qualquer consequência no plano desportivo. Mas vai ser difícil vender Gaitan a bom preço. Ele não tem “ajudado” nada…

O Braga ganhou sem dificuldade com uma espécie de equipa B ao Beira-Mar, por 3-1 e Porto derrotou sem apelo o Vitória de Guimarães por 4-0. Ou seja, tudo se inquilina para que o campeonato venha a ser um campeonato a três, a menos que o Sporting resolva intrometer-se. A ver vamos…

domingo, 19 de agosto de 2012

JESUS BRINCA COM O FOGO




BENFICA COMEÇA MAL



Não se pode dizer que tenha constituído uma grande surpresa o empate do Benfica frente ao Braga no primeiro jogo do campeonato. Primeiro, porque o Benfica não ganha o primeiro jogo há muitos, muitos anos; depois, porque o plantel tem fragilidades inaceitáveis e incompreensíveis tendo em conta os milhões gastos em aquisições.

De facto, foram essas fragilidades, bem patentes desde a venda de Fábio Coentrão, que ontem ditaram o empate do Benfica – um empate com sabor a derrota. A responsabilidade por estas fragilidades é, sem dúvida, de Jorge Jesus. Se o treinador não conseguiu contratar o jogador que pretendia para o lugar de defesa esquerdo só tinha que manter na equipa quem sabe jogar nesse lugar. E mais: se não havia dinheiro para comprar o jogador pretendido, deveria ter-se prescindido de outras aquisições para lugares onde há jogadores em excesso, como é o caso dos extremos.

Inaceitável, absolutamente inaceitável, é que a estúpida teimosia do treinador decida colocar no lugar de defesa esquerdo um jovem cheio de potencialidades que foi contratado para jogar a extremo. Inaceitável, incompreensivelmente inaceitável, é que Jorge Jesus num jogo de grande responsabilidade – de responsabilidade máxima – resolva adaptar uma jovem promessa a um lugar onde já tinha dada provas mais do quer suficientes de que não tinha capacidade para lá jogar.

Os golos do Braga não são, portanto, da responsabilidade de Melgarejo, mas de Jorge Jesus. Uma responsabilidade dupla: a responsabilidade de fragilizar a equipa e a responsabilidade de “queimar” um excelente jogador.

Como já aqui dissemos muitas vezes, Jesus está longe, muito longe, de ser um treinador inteligente. As suas limitações nessa matéria são correspondentes às limitações que espelha quando tenta explicar ou descrever o que quer que seja. O Benfica precisa, portanto, de alguém com prestígio e autoridade ao lado de Jesus para colmatar as suas muitas lacunas.

Luisão, mais uma vez, deu provas da sua insegurança em vários lances. Luisão é outro problema que o Benfica vai ter de resolver com urgência, sob pena de vir a sofrer muitos dissabores.

O jogo foi dividido, o empate ajusta-se ao que as equipas fizeram e não parece, pelo que se viu, que o Benfica esteja melhor do que na época passada. Pelo contrário… Já o Braga pareceu igual ao que tem sido nas últimas épocas.

Finalmente, a arbitragem não esteve isenta de erros. Soares Dias expulsou Douglão perto do fim do jogo por mão de Custódio dentro da área. O penalty foi bem assinalado, mas a expulsão não. E como é hábito em Portugal uma onda inacabável de especulações terá agora lugar sobre o que o Braga teria feito se tivesse jogado com onze. Além disso há um terceiro golo do Benfica marcado no 88.º minuto que foi anulado por alegada falta de Cardozo sobre o guarda-redes. Visto e revisto o lance, não parece que o avançado benfiquista tenha sequer tocado no guarda-redes do Braga. Aparentemente foi um golo legal que o árbitro invalidou.

sábado, 18 de agosto de 2012

VOLTOU O FUTEBOL A SÉRIO






A LIGA PORTUGUESA



Depois do Euro 2012, do Tour de França – o maior espectáculo desportivo do mundo -, dos Jogos Olímpicos - onde, diga-se o que se disser, sempre se joga o prestígio desportivo dos Estados -  e dos jogos de preparação, estão à porta as grandes competições futebolísticas da Europa.

Na Espanha alarga-se o fosso entre o duo Real Madrid, Barcelona e os demais. Um fosso que a iníqua e inaceitável distribuição das receitas da TV agrava todos os anos. De facto, o campeonato espanhol é, na perspectiva dos candidatos ao título, um dos menos competitivos de toda a Europa. A competição resume-se ao confronto Barça-Real, sendo cada vez maior a distância que os separa  dos restantes. Basta dizer que a diferença pontual entre o vencedor da época passada, Real Madrid, e o terceiro classificado, Valência, é bem maior que a diferença que separa o Valência do último classificado! Um campeonato em que o primeiro classificado faz mais de cem pontos e marca mais de cem golos é necessariamente um campeonato pouco interessante.

Um campeonato bem diferente do italiano, do Inglês, do alemão e do francês, onde, apesar de haver em alguns deles um conjunto de equipas que frequentemente repetem a vitória, nem por isso deixa de haver competição tanto por sempre poder surgir como vencedora uma equipa que não se esperaria pudesse alcançar o título (Alemanha e França), como por as vitórias ao longo destes últimos dez anos terem sido repartidas entre várias equipas e não apenas entre duas (Itália e Inglaterra).

Em Portugal, o futebol estás confinado a uma indústria dominada pela Olivedesportos. Soube-se agora que são eles que abastecem a Federação de automóveis e já há muito se sabe que são eles também que mandam na Federação e que condicionam seriamente a vida dos clubes. Porto e Benfica têm repartido os triunfos nos últimos tempos, com larga vantagem para o FCP.  Nos últimos anos o Braga logrou juntar-se aos dois primeiros sem nunca verdadeiramente ameaçar a sua hegemonia, enquanto o Sporting se tem arrastado penosamente atrás do Porto, Benfica e Braga sempre na ilusão, cada dia mais irrealizável, de poder chegar ao título.

Na época que ontem se iniciou com a vitória tangencial (2-1) do Olhanense sobre o Estoril, o Benfica e o Porto reforçaram-se moderadamente (e ainda não perderam nenhum dos jogadores da época passada), o Sporting conseguiu créditos onde não se esperava pudesse encontrá-los e inicia, por isso, o campeonato cheio de renovadas ilusões, enquanto o Braga parece manter o equilíbrio das últimas épocas.

O Benfica parte para o campeonato com reforços em excesso nas alas dianteiras e no meio campo e com fragilidades nas laterais defensivas e no centro da defesa. Além disso, que já não era pouco, entra no campeonato marcado pelo triste “episódio Luisão”, que, bem vistas as coisas, apenas evidencia aquilo que na época passada fomos aqui dizendo do central benfiquista: deficiente condição física, excessiva lentidão e exagerada utilização do físico em substituição dos recursos verdadeiramente futebolísticos. Com a sua inaceitável conduta, Luisão causou ao Benfica um grave dano patrimonial e moral, agravado pelas manifestações de solidariedade que alguns responsáveis benfiquistas exageradamente protagonizaram. De facto, a conduta de Luisão é altamente reprovável, mesmo que o efeito por ela produzido tenha sido manifestamente desproporcionado. Mas é um gesto, um lamentável e reprovável gesto, que vai marcar por muitos e muitos anos o Benfica. E tanto mais quanto mais for defendido e justificado o comportamento de Luisão. Luisão deve ser punido, com justiça, pelas autoridades disciplinares portuguesas e também pelo Benfica, principalmente pecuniariamente.

O jogo de logo à noite, contra o Braga, acaba, por causa de tudo isto, de ser muito mais que um simples jogo de início do campeonato. Nele se avaliará do equilíbrio emocional da equipa e da sua capacidade para resistir ao “episódio Luisão” que vai inevitavelmente marcar o comentário desportivo deste campeonato…

terça-feira, 3 de julho de 2012

RESCALDO DO EURO 2012



A VITÓRIA DE ESPANHA

A primeira e mais importante nota sobre o Euro 2012 é a vitória da selecção espanhola por mais que o assunto já tenha sido tratado em todo o mundo. Algo de extraordinário se passou em Espanha para que a partir de 2008 a selecção espanhola de futebol ser a principal favorita das provas em que participa e simultaneamente tivesse feito jus a esse favoritismo vencendo-as. Algo de extraordinário se passou para que num país onde sempre existiram jogadores de classe mundial e onde em diversas épocas se encontraram gerações de grandes futebolistas, mas sempre sem ganhar nada, com excepção de uma copa de europa (1964) em moldes muito diferentes dos actuais, algo de extraordinário se passou, dizíamos, para que a partir de 2008 Espanha, em futebol, seja sinónimo de vitória.
A primeira coisa que há a sublinhar é o facto de a Espanha passar a ter um estilo que nada tem com o das selecções do passado. Antes era a fúria, aquela força bem espanhola feita de vontade e paixão, que se apresentava em campo para ganhar. Agora o que se apresenta em campo é um conjunto de jogadores dotados de uma técnica extraordinária e de uma inteligência de jogo que faz com que na maior parte dos casos os jogadores das equipas adversárias sejam meras espectadores do futebol que eles praticam. Mas espectadores especiais, pois contrariamente aos que estão na bancada eles têm a pretensão de também participar no jogo; eles também querem jogar, embora passem a maior parte do seu tempo à procura da bola que permanentemente lhes escapa.  
Quem implantou este futebol em Espanha foi Guardiola exactamente na época em que a Espanha ganhou o primeiro desta série de títulos, o Euro 2008. O Barcelona começou a praticá-lo na época 2007/2008. Depois foi-o refinando, ganhando títulos em série. A marca deste jogo era tão forte que a selecção adoptou-o, adaptando-se facilmente a ele os excelentes futebolistas que vinham de outras paragens (Real Madrid, Sevilha, Valência, enfim, clubes estrangeiros). Em 2010 na África do Sul estilo de jogo já estava consolidado e a Espanha voltou a vencer. Em 2012, embora também mais conhecido e estudado, atingiu o seu apogeu. A Espanha experimentou dificuldades no primeiro jogo contra a Itália, sem nunca ter corrido o risco de perder, passou por momentos difíceis contra a Croácia – e ninguém sabe o que teria sucedido se o árbitro tivesse visto o que toda a gente viu – e foi superada por Portugal nos 90 minutos, tendo recuperado no prolongamento.
Este futebol que a Espanha pratica nada tem a ver com o do Real Madrid, seja o RM deste ano, seja o dos anos anteriores, apesar de lá ter quatro titulares. A sua base, a sua concepção de jogo, é a do Barcelona. Este ano até mais do que qualquer outro dada a posição em que Fábregas jogou. E sendo assim a questão que se põe é se a hegemonia da selecção espanhola poderá sobreviver à eventual perda de hegemonia do Barcelona.
Depois houve outras notas interessantes que convém sumariar muito rapidamente:
Apenas houve três expulsões e uma delas, a de Sokratis da Grécia, mal decidida; houve apenas três penalties, dois a favor da Grécia e um da Alemanha; foi disciplinarmente um Euro muito correcto – os jogadores facilitaram muito a vida aos árbitros e estes erraram muito menos. Os fora de jogo foram quase todos bem assinalados o que não deixa de ser uma performance extraordinária inclusive para equipas de arbitragens que nos seus respectivos países nem sempre primam pelo rigor. Uma das excepções ocorreu num lance que deu lugar a uma das mais polémicas questões de todo o campeonato – o golo da Ucrânia contra a Inglaterra não validado; se o off side tivesse sido assinalado a questão do golo já não se teria posto. É o que se chama escrever direito por linhas tortas. Houve ainda três ou quatro lances que levantaram mais polémica, todos eles relacionados com faltas cometidas pela equipa defendente dentro da sua área – dois na área da Espanha contra a Croácia; um na área da Itália contra a República da Irlanda e um outro na área da Alemanha no jogo contra a Dinamarca. Na final, Pedro Proença não assinalou uma mão na área italiana por ter entendido que não houve intencionalidade.
Quanto a jogadores, os que mais se distinguiram foram os da equipa espanhola, não sendo exagerado colocar vários deles entre os melhores do Europeu, a saber: Casillas, Sérgio Ramos, Jordi Alba, Xabi Alonso, Iniesta e Fábregas. Na Itália Pirlo e também Balotelli, sempre muito presente e decisivo nas duas vitórias da equipa; na Alemanha Özil; e na equipa portuguesa Pepe, Coentrão e Moutinho. Ronaldo só esteve bem em dois jogos, tendo ficado muito aquém das necessidades da equipa nos outros três.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

ESPANHA CAMPEÃ DA EUROPA



QUE SE PASSOU, ITÁLIA?
[foto de la noticia]



A Espanha venceu o terceiro grande título consecutivo do futebol internacional, um feito único na história do futebol. Depois do grande jogo que a Itália fez contra a Alemanha nas meias-finais do torneio ainda houve quem tivesse admitido que a Espanha poderia vir a ter dificuldades nesta final, sendo, pelo menos, obrigada a fazer um jogo tão disputado como o que realizou contra a Holanda na África do Sul.

Não foi assim. Este foi upara Espanha um dos jogos mais fáceis do campeonato.Pouco depois de o jogo ter começado logo se percebeu que aquela Itália estava perdida na defesa, transfigurada e pronta para o desastre. De facto, nem era a Itália dos tempos passados, forte defensivamente, nem a Itália deste Euro, forte na linha média e no ataque, com segurança na defesa. Dava a ideia de uma equipa que pela primeira vez estava a tentar pôr em prática um modelo de jogo novo e que tudo lhe saia mal. Não era a Itália dos jogos anteriores, nem conseguia ser a Itália que, pelos vistos, estava pensada para este jogo.

Daí que a Espanha tenha chegado ao golo bem mais cedo do que é habitual nela e tenha também praticado um futebol bem mais atractivo do que praticado nos jogos anteriores. Adivinhava-se o golo a todo o momento: grande passe de Iniesta a Fabregas que vai à linha, junto á baliza, cruza atrasado e Silva de cabeça marca.

Depois do golo espanhol a Itália reagiu. A melhor forma de dar tréguas à sua atribulada defesa era manter a bola bem longe dela. Mas dessa reacção não resultou o empate que a Itália tanto procurava, acabando por ser a Espanha que numa combinação magistral entre Xavi e Jordi Alba marca o segundo golo.

A sorte da Itália estava decidida. Entretanto os azares começavam a persegui-la: Chiellini, que tão bem tinha estado nos jogos em que alinhou, teve uma lesão muscular e foi substituído por Abate.

No segundo tempo os azares continuaram. Prandelli substituiu Cassano por De Natale, que logo no primeiro minuto teve oportunidade de marcar, como voltaria a ter mais tarde. Só que da primeira vez atirou sobre a barra e da segunda Casillas defendeu. Depois foi a inesperada substituição de Montolivo por Tiago Motta. Pouco mais de cinco minutos esteve Motta em campo: nova lesão muscular e a Itália reduzida a dez unidades com mais de meia-hora para jogar. Foram trinta minutos de sofrimento, quase de pesadelo. Sem qualquer capacidade de reacção a Itália sofreu o terceiro por Torres que entrara para o lugar de Fábregas e quarto por Mata no primeiro toque que deu na bola.

Não há sobre o jogo muito mais a dizer. A Espanha é uma grande equipa, uma das grandes equipas da história do futebol, e a Itália de quem tanto se esperava, fosse pelo seu passado mais remoto, fosse pelo mais recente, frustrou todas as expectativas na final, fazendo um jogo como não há memória na história do futebol italiano em grandes competições.

Mas não pode nem deve imputar-se o êxito espanhol à fraca prestação italiana. A Espanha, como já se disse, tem uma equipa que ficará para a história do futebol internacional como uma das melhores de sempre. Servida por jogadores excelentes onde não desponta uma grande estrela, porque são todos grandes estrelas. Estrelas sem vedetismo e com muito profissionalismo.

Depois deste êxito da Espanha está relançada a questão da “bola de ouro” deste ano. Cristiano Ronaldo e o marketing que o apoia tudo têm feito fora do campo para que seja ele o escolhido. A verdade é que dentro do campo, apesar da vitória na Liga espanhola e dos golos que marcou, tem de reconhecer-se que Messi foi melhor do que ele. Ganhou dois títulos e marcou mais golos. E jogou melhor, foi mais espectacular. Mas seria uma injustiça, uma grande injustiça, não premiar um jogador espanhol. Um daqueles que repetiu com a vitória de hoje, as vitórias do Euro 2008 e a vitória do Mundial de 2010. E três nomes se perfilam: Casillas, Xabi e Iniesta. A escolha é difícil. Qualquer um deles a merece. Talvez Casillas devesse ser distinguido pelo que ganhou este ano, pelas exibições que realizou, pela carreira, por ser guarda-redes (desde Yashin nunca mais outro a venceu) e por ser um exemplo de desportista e de cidadão.

sábado, 30 de junho de 2012

A ENTREVISTA DE PAULO BENTO





O DÉFICE DEMOCRÁTICO NO FUTEBOL
Queirós e Manuel José aproveitaram-se: Paulo Bento



Paulo Bento parece ser uma pessoa séria tão convencido das suas opções técnicas como das suas virtudes morais. Mas mesmo que estas qualidades lhe fossem unanimemente reconhecidas elas não o isentariam nunca da crítica. A sua actividade, como qualquer outra, está sujeita à crítica. A entrevista de ontem à noite na RTP deveria ter servido para aprofundar a questão da crítica no futebol, nomeadamente quando está em causa a selecção. Carlos Daniel, um dos entrevistadores, não enjeitou o tema, mas breve percebeu que havia pouco campo para isso, principalmente pelas posições categóricas defendidas pelo entrevistado sobre o modo como exige que os outros interpretem o seu papel ou, dito ao contrário, sobre o modo como exige que os outros se comportem.

Nas críticas à selecção, genericamente consideradas, houve três ou quatro assuntos que de modo mais ou menos directo constituíram o objecto das preocupações de quem escreveu ou de quem falou.

O primeiro, levantado por Manuel José e secundado por Carlos Queiroz, tinha a ver com o planeamento da preparação para o Europeu e com o papel dos patrocinadores;

O segundo, muito discutido na imprensa, embora nem sempre com a consistência devida, respeitava às escolhas de Paulo Bento;

O terceiro com as opções técnicas do seleccionador em momentos decisivos do Euro como o modo de abordagem do jogo contra Alemanha, o desamparo de Coentrão no jogo contra a Dinamarca, a “política” das substituições em todos os jogos e a escolha da lista dos marcadores das grandes penalidades bem como da respectiva ordem, no jogo contra a Espanha;

O quarto com o papel de Ronaldo na selecção, questão umas vezes ostensivamente outras subliminarmente presente em todas as análises, embora muito atenuada depois da prestação do jogador nos jogos contra a Holanda e a República Checa.

Paulo Bento não aceita que colegas de profissão e mais ainda ex-seleccionadores o critiquem relativamente a uma matéria que, segundo ele, desconheciam. É claro que esta resposta visa deitar poeira nos olhos de quem o ouve. De facto, a crítica incidiu sobre aspectos que estavam à vista de toda a gente, tendo as palavras de Manuel José sido secundadas por legiões de adeptos e que se justificavam plenamente depois das péssimas exibições da selecção nos jogos particulares de preparação. Por outro lado, a chamada de atenção sobre o papel dos patrocinadores é também uma questão muito importante, porque eles tendem a destruir a independência de quem é formalmente responsável. Paulo Bento até deveria ter agradecido esta crítica. Paulo Bento reagiu mal às críticas porque no fundo é contra a crítica. Acha que a crítica põe em causa a sua pessoa e a sua competência e reage a isto como se de uma questão de honra se tratasse. É uma atitude que revela insegurança - uma característica típica das personalidades autoritárias - que todavia pode vir a ser corrigida com mais maturidade que o tempo lhe permitirá adquirir. Por outro lado, a ostentação exibida pelos jogadores e o modo como Ronaldo se dirigiu ao Presidente da República, além de demonstrarem falta de senso, revelam também falta de preparação dos actos em que a selecção participou.

A questão das escolhas não foi abordada na entrevista. Mas alguma coisa está mal quando há sete jogadores que nem um minuto jogam em cinco jogos, um deles com prolongamento. Se eram assim tão diferentes dos titulares e se tinham dificuldades em se adaptar ao modelo de jogo do seleccionador por que foram convocados? Por que não se escolheu outros? É certo que não há “muita fartura” mas sempre teria sido possível escolher alguém “mais parecido” com os titulares e que se adaptasse melhor às ideias do treinador. Por que foram escolhidos Quaresma e Hugo Barbosa se manifestamente não tinham qualquer hipótese de jogar?

Relativamente às críticas relacionadas com questões técnico-tácticas, como elas foram feitas também por ex-jogadores de renome na selecção, Paulo Bento deu a entender que as aceitava, mas desculpou-se logo a seguir com a dificuldade que por vezes os jogadores têm de pôr em prática a estratégia visada, não necessariamente por culpa deles, mas como consequência das vicissitudes do próprio jogo. Também ficou por esclarecer quem estabeleceu a ordem de marcação das grandes penalidades e ninguém perguntou por que razão foi escolhido Moutinho. Aqui havia campo para muita mais conversa. E é bem melhor ter “estas conversas” quando as coisas correm bem do que quando correm mal.

Finalmente, a questão de Ronaldo foi contornada por Paulo Bento. Compreende-se: é um assunto delicado para qualquer treinador. Mas é óbvio que salta aos olhos de toda a gente que Ronaldo não é líder de coisa nenhuma a não ser dele próprio. Ególatra e narcísico como é, preocupa-se apenas com a sua pessoa. Está muito longe pelas características da sua personalidade de personificar o líder que uma equipa de futebol por vezes precisa. Não se é líder por se ser bom jogador. São coisas diferentes. Ronaldo em muitos jogos o que realmente precisava era de alguém que “mandasse” nele dentro do campo…

Repare-se que as críticas que foram dirigidas à selecção nem sequer são assim tão contundentes, pelo menos a maior parte delas, como se pretendeu fazer crer. O que é lamentável é que o seleccionador ache que elas se “não devem fazer”. Seja por razões éticas sejam por razões técnicas.

Infelizmente há quem no jornalismo desportivo siga à risca os pontos de vista de Paulo Bento, o que desde logo deixa perceber qual o grau de independência e de profissionalismo de muita gente que se dedica à imprensa desportiva. Alguns programas, bem como os respectivos protagonistas, foram caricatos. Na TVI 24 o seguidismo e o tom ofendido com que foram recebidas as críticas deixa em suspenso dúvidas que certamente só mais tarde se desvanecerão. As críticas não são aceitáveis porque os comentadores são amigos do criticado? Porque querem estar nas boas graças da Federação? Porque estão à espera de alguma coisa? É que o papel de um jornalista desportivo não é fazer a crítica em função das amizades ou das recompensas que espera obter. O seu compromisso é apenas com os telespectadores. Se não tem condições para respeitar esse compromisso deve abandonar a profissão. Mas nem todos pautaram o seu comportamento pelo exemplo da maioria. Na RTP Informação houve muita mais compreensão pelas críticas e respeito pelos seus autores, mesmo quando não se concordava com elas, do que em qualquer outraa estação de TV. Pelo menos, de uma parte considerável dos comentadores…


sexta-feira, 29 de junho de 2012

GRANDE ITÁLIA, PIRLO, BALOTELLI & C.ª




A MANNSCHAFT VAI PARA CASA
Mario Balotelli dopo il 2-0.


A meia-final desta noite entre a Alemanha e Itália foi um grande jogo de futebol. Uma grande Itália venceu a Alemanha (2-1) com dois golos notáveis de Balotelli, uma exibição excelente de Pirlo, uma notável organização táctica e um futebol tecnicamente quase perfeito não fora algumas perdidas que a terem sido concretizadas teriam feito passar o jogo de hoje para o pequeno número dos jogos com resultados históricos entre grandes equipas. Sim, a Itália poderia ter goleado a Alemanha.


Todos aqueles que apostavam no rigor e na força física alemãs estão agora com muita dificuldade para explicar uma vitória que não deixou dúvidas. Dizem que Joachim Löw errou tacticamente, que não deveria ter mudado a equipa no jogo contra a Grécia, que os titulares perderam rotinas e ritmo. É claro que estas explicações só podem fazer rir. A selecção alemã tem mais de duas dezenas de jogadores praticamente iguais. Não é possível a um seleccionador nestas circunstâncias marginalizar permanentemente meio grupo, como fez, por exemplo, Paulo Bento. Também não é verdade que o ritmo altamente competitivo deste tipo de torneios não cause fadiga aos jogadores.  Causa e não será pouca: fadiga física e mental. Por isso nada melhor do que fazê-los rotativamente descansar, podendo. Se alguma coisa de errado houve na equipa alemã, essa coisa foi a actuação dos centrais – os tais centrais quer alguns dos nossos comentadores tanto tinham elogiado. Mas isso já não é culpa do seleccionador.

Pegar em duas ou três jogadas minuciosamente escolhidas para com base nelas, a maior parte das vezes com a imagem parada, fazer uma demonstração de como foi o jogo não passa de uma batota. De uma grande batota. Há no jogo múltiplos factores aleatórios e muitas ouras jogadas iguais às escolhidas que têm um desfecho completamente diferente. As estatísticas, inclusive as que se referem à ocupação espacial pelos jogadores, são infinitamente mais fiáveis de que estes exemplos tácticos com base em jogadas escolhida. Estes exemplos apenas servem para demostrar ou para explicar por que razão as coisas se passaram assim naquele lance. Nada mais.  

Na verdade o que nós hoje vimos foi uma super equipa italiana baseada na Juventus, com um maestro extraordinário – Pirlo – e um Balotelli muito inspirado sempre muito bem acompanhado pela genialidade de Cassano. Como não reconhecer classe, classe pura, a uma equipa que passa a bola de forma tão perfeita, que progride com ela sempre tão perigosamente e que defende com tanta eficiência dentro da sua área, às vezes quase sobre o risco de golo? Sem nunca perder o sentido do jogo, fazendo as coisas com a tranquilidade e o saber dos grandes mestres e que além do mais conta com um guarda-redes de eleição. Sim, que dizer de uma equipa destas?

Pois essa equipa, essa extraordinária equipa, é a Itália. A Itália para a qual a dificuldade, a grande dificuldade, está sempre na fase de grupos. Uma vez passada esta fase a Itália é sempre um potencial candidato, porque é uma equipa que vai crescendo com o avançar da prova. Tem sido assim neste Euro como assim já foi em muitos Mundiais ou Europeus anteriores.

 Para concluir, é nossa convicção que o grande adversário da Itália na final de domingo não será a Espanha, mas o cansaço. A Itália jogou os quartos-de-final, com prolongamento, no domingo; jogou as meias-finais hoje (quinta-feira) e vai jogar a final menos de três dias depois. A Espanha como se viu no jogo contra Portugal está mais fresca. Vai ser em qualquer caso uma final muito difícil para Espanha.


quinta-feira, 28 de junho de 2012

O FUTEBOL E A CRÍTICA






A PROPÓSITO DOS PENALTIES E DE OUTRAS OPÇÕES



O futebol dá-se muito mal com a crítica. Pelo menos, em Portugal é assim. É verdade que poucas pessoas gostarão de ser criticadas qualquer que seja o ramo de actividade a que se dediquem sempre que a crítica ponha em causa o que por elas foi feito. Se a crítica é elogiosa a situação muda por completo. De rejeitada a crítica passa a ser citada. Alguns outros estabelecem uma distinção entre crítica construtiva ou destrutiva. A primeira teria em vista ajudar a fazer melhor e seria ditada pela única preocupação de aferir o objecto da crítica com o paradigma perfilhado pelo crítico. Já a destrutiva teria como única finalidade dizer mal, pôr em causa o que está sendo feito pelos outros e seria ditada pela baixa formação moral do crítico.

É claro que tudo isto não passa de conversa. A crítica é uma actividade fundamental e imprescindível em qualquer sociedade democrática, tendo apenas – e este apenas é tudo – a sua validade que aferir-se pelo seu valor intrínseco. Não é necessário que crítico e criticado perfilhem os mesmos valores ou que o crítico saiba fazer o que ao criticado critica. O que é imprescindível é que a crítica seja técnica e valorativamente sustentável.

E o que se passa numa sociedade como a nossa é que, apesar de os criticados em regra não gostarem da crítica, vêem-se na maior parte das vezes obrigados a tê-la em conta e a responder-lhe. Passa-se assim antes de mais na política. Raramente na política os criticados concordarão com a crítica que fazem às suas opções, mas isso não significa que não saiam a terreiro a defender as suas posições. Passa-se assim também nas actividades profissionais mais ou menos especializadas. O criticado responde à crítica e defende o seu ponto de vista. Igualmente assim se procede nas artes. O artista, apesar de não gostar nada da crítica que ponha em causa a sua obra ou alguns aspectos dela, não pode fazer de conta que a crítica não existe e, embora contrariado, vê-se obrigado a responder-lhe. Até em questões da vida pessoal todos nós nos vemos obrigados a responder à crítica quando ela vem de pessoas com quem estamos estreitamente relacionados.

Mas há em Portugal uma excepção a tudo isto. É o futebol. No futebol, principalmente a crítica feita aos técnicos, nunca tem resposta. O conteúdo da crítica nunca tem. E se em vez de uma equipa de clube se tratar da selecção, então as coisas ainda agravam-se mais. A resposta, quando existe, nunca está relacionada com aquilo que se disse mas com o facto de se ter dito aquilo. A resposta nunca incide sobre o conteúdo da crítica mas sobre a própria crítica. E sempre com insinuações e adjectivações estúpidas.

O técnico de futebol é alguém que está acima de toda a crítica. A sua imensa sabedoria só encontra paralelo na sua incomensurável arrogância.

Basta ver o que se passou recentemente com Paulo Bento para não haver qualquer espécie de dúvida sobre a arrogância com que na selecção as críticas foram tidas em conta. Já antes se tinha passado assim com Queiroz e o mesmo se passa nos clubes, por exemplo, com Jesus ou com José Mourinho, o mais arrogante de todos. E todavia – voltando à selecção – Paulo Bento tem muito que explicar. Explicar, a propósito os penalties, por que pôs Ronaldo a marcar o último, opção criticada por toda a imprensa internacional, por que incluiu Moutinho na lista dos marcadores, sabendo, como não poderia deixar de saber, o historial de Moutinho nessa matéria? Por que utilizou tão pouco Varela, apesar das boas provas que deu sempre que foi chamado, quando se estava a ver pela repetição dos jogos que de Nani nunca iria sair nada de excepcional? Por que convocou Hugo Viana e Ruben Michaelis se nunca os pôs a jogar, para mais alinhando eles na zona de maior desgaste da equipa portuguesa? Por que não convocou jogadores com características mais parecidas com as dos três médios titulares se era esse o modelo de jogo em que ele acreditava? Por que deixou nos dois primeiros jogos – contra a Alemanha e a Dinamarca – que o corredor esquerdo da defesa portuguesa ficasse apenas entregue a Coentrão quando logo se percebeu que Ronaldo não marcava?

Seria interessante ouvir Paulo Bento sobre estas questões e outras certamente pertinentes para avaliar da consistência das suas opções. Seria muito mais interessante do que ouvi-lo mais uma vez a criticar a crítica, pelo simples facto de ter sido feita, esgrimido agora, como muito provavelmente fará, com a prestação global da equipa, género: “Chegamos com muito mérito às meias-finais e só fomos eliminados pelo campeão do mundo nas grandes penalidades”!