quarta-feira, 9 de julho de 2014

A DERROTA DA SELECÇÃO BRASILEIRA


 
UM CASO ISOLADO OU A CONSEQUÊNCIA DE UM ATRASO?

 

Há na Europa a convicção generalizada de que o futebol do Brasil está muito atrasado relativamente ao que se pratica no velho continente. O Brasil tem óptimos executantes, os talentos nascem como cogumelos em dia de chuva, sem plantação e sem escola, despontam na Europa grandes jogadores brasileiros de que a generalidade dos brasileiros nunca tinha ouvido falar. Mas há também no Brasil uma escola que terá começado com Parreira (e de que a selecção de 94 já é um exemplo, não obstante os talentos que a constituíam), se acentuou com Scolari (idem, relativamente à de 2002) e depois se generalizou na formação tendente a privilegiar o físico, a rudeza em detrimento do talento puro. Esses jogadores quase todos defesas (zagueiros) e cabeças de área (de que os “Fenandinhos”, os “Paulinhos”, os "Luís Gustavos” são hoje os mais acabados exemplos) expulsaram do meio campo a tradicional criatividade e imprevisibilidade do futebol brasileiro. E o mais grave é que essa tendência está a lastrar às partes mais avançadas do campo onde também o físico tende a prevalecer sobre a arte, como é óbvio na presente selecção com os casos de Fred e de Hulk.

A par disto, que já era muito, o Brasil convive muito mal com a ideia de não ter sempre nas suas fileiras “o melhor do mundo”. Ora, como se sabe, nos últimos anos essa imputação recaiu sistematicamente em dois jogadores, embora um deles a mereça muito mais do que outro, daí que o Brasil, o futebol brasileiro, esperasse ansiosamente o despertar de um talento para logo o guindar ao pedestal de “o melhor do mundo” e à volta dele construir a sua equipa. Desgraçadamente para Neymar recaiu sobre ele essa maldição e desde então o pobre do rapaz vem arcando com a responsabilidade de levar a equipa às costas.

Esta ideia de idolatrar um jogador a quem falta ainda completar um longo percurso e fazer a equipa girar à sua volta como coisa secundária dá sempre mau resultado. Não apenas com Neymar, mas com qualquer outro que esteja na sua posição, chame-se ele Messi ou Cristiano Ronaldo. Deste último nem vale a pena falar tão evidentes são os exemplos que demostram que sem equipa, ou com a equipa secundarizada, ele não passa de um jogador comum. E o próprio Messi só foi grande no Barcelona com uma grande, enorme, equipa, onde despontavam talentos imensos como Xavi e Iniesta, para falar apenas destes, e um treinador “cinco estrelas”. Mas quando todo este contexto começou a esboroar-se, principalmente pela perda do treinador, Messi, embora continuando a ser um grande jogador, nunca mais foi o mesmo. Foi cada vez mais o Messi da selecção argentina…

Para além disto tudo, que já não era pouco, é evidente aos olhos de todos que no plano da metodologia de treino e do “pensar” o futebol, o Brasil perdeu hoje, ou melhor já perdeu há muito, na própria América Latina a hegemonia para os argentinos (mais próximos dos europeus, mas sempre muito criativos, como Bielsa, Sampaioli, entre tantos outros) e para os próprios colombianos que percebem hoje mais de futebol do que os brasileiros. Mas se no seu próprio continente perderam a hegemonia que dizer relativamente à Europa?

Esta questão é, porém, muito fácil de resolver. O Brasil tem de importar este saber até que o assimile e o supere, por muito que isso custe ao “país do futebol”. O Brasil vai ter fazer o mesmo que fizeram os inventores do futebol. Também os ingleses, durante muito tempo, não olhavam, ou olhavam com desdém, para o que se passava na Europa continental, apesar de os confrontos entre os clubes britânicos e os europeus continentais deixarem cada vez mais a nu essa fragilidade. E acabaram por constatar o que do lado de cá da Mancha já há muito se sabia: estavam atrasados. E o remédio foi importar o saber onde ele se encontrava. É isso que o Brasil vai ter de fazer. Importar tudo, desde a formação até ao futebol jogado pelas grandes equipas.

Como ao Brasil o que não falta é matéria-prima, depressa o atraso que agora existe será colmatado e ultrapassado. E nisto não pode haver orgulhos estúpidos. Da mesma forma que os brasileiros, os técnicos brasileiros, durante várias décadas, a partir de 50 do século passado, ensinaram futebol ao mundo, também agora o mundo onde o futebol está muito mais adiantado (Europa) deverá ser chamado a ensinar futebol ao Brasil, seguramente com resultados espectaculares a um prazo relativamente curto.

Dito isto, é preciso porém ter em conta que para além das debilidades técnico-tácticas da selecção brasileira, já amplamente expostas em confrontos anteriores, o Brasil foi ontem vítima de um colapso emocional, que se não tivesse existido não lhe asseguraria a vitória, mas certamente teria evitado o vexame por que passou. De facto, é quase incompreensível que jogadores excelentes, que jogam nas grandes equipas mundiais, quase todos fora do continente americano, com excepção de Júlio César (sem nenhuma culpa no aconteceu) e Fred, tenham cometido erros tão graves como os que cometeram durante todo o jogo. Erros que nunca teriam cometido se estivessem a jogar nas suas equipas europeias. Sem falar em nomes para não ser desagradável, como explicar os repetidos erros defensivos a que ontem sistematicamente assistimos? Isso era impossível nas equipas europeias em que jogam. E se porventura, por descuido, tais erros tivessem sido cometidos uma vez, jamais seriam repetidos.

Mas estes erros são apenas um exemplo do descontrolo emocional, sem o qual o Brasil sempre perderia. Claro, que no futebol o factor emocional, tanto no aspecto positivo como negativo, não pode ser desprezado. Ele existe, quer os treinadores queiram ou não. Mas do que também não há dúvida é que o futebol fica muito mais fragilizado quando os treinadores propositadamente o procuram convencidos de que ele terá um efeito positivo inigualável – um efeito que nenhuma ciência poderá igualar.

Pensar assim é um erro. Mais vale pensar o contrário, ou seja fazer como a Alemanha: o factor emocional existe no futebol, mas o nosso papel é contrariá-lo. É limitar os seus efeitos. E mesmo assim ainda resta muita aleatoriedade ao futebol: por a bola ser redonda e ser jogado com os pés…

Vamos esperar que estes 7-1 que a Alemanha deu ao Brasil acabem por ter um efeito positivo, muito mais positivo do que teria uma simples vitória tangencial…

terça-feira, 8 de julho de 2014

AFINAL, O QUE É O BENFICA?


 

 

UM ENTREPOSTO? UMA FEITORIA?
Festejos Benfica

Não perguntamos de quem é o Benfica porque os sócios, adeptos e simpatizantes já não têm ilusões acerca da resposta. O Benfica é dos credores em consequência da dívida que necessariamente se tornará insustentável dentro de pouco tempo.

A nossa pergunta é antes outra: afinal, o que é o Benfica? É um clube de futebol com um passado glorioso que não soube adaptar-se à época da globalização, ou seja, que pretendeu ser o que não poderia ser deixando ser o que estava ao seu alcance ou é antes um simples entreposto por onde passam jogadores durante uns escassos meses na expectativa de se valorizarem para imediatamente serem vendidos na busca do lucro fácil e rápido? É uma espécie, para pior, de uma feitoria unicamente preocupada com a comercialização dos produtos comprados que, além do mais, facilitam a comercialização pela venda dos produtos “fabricados” ou que, tendo sido comprados, se lhes juntou um considerável valor acrescentado?

E como é distribuído o produto desses negócios? Quanto cabe ao financiador? Quanto fica para o intermediário? Quanto é destinado a amortizações? E, depois de todas estas partilhas, quanto sobra para a colectividade que gerou o “valor acrescentado”?

O futebol, tal como o mundo do capital financeiro, que actualmente domina por completo o capitalismo e os negócios em geral, logo a vida das pessoas, está hoje minado pela ideologia dominante – a que recusa a justa repartição dos rendimentos e que advoga o crédito como panaceia para todos os males ou como solução para todos os problemas, com as consequências que, por todo o lado, se conhecem: o capital financeiro e especulativo cada vez mais forte e a sociedade cada vez mais desigual.

O Benfica está hoje draconianamente submetido a esta lógica, sendo o que se está a passar um exemplo muito mais eloquente do quaisquer palavras. De uma equipa campeã, quem restará? Afinal, quantos jogadores, participando nas vitórias do ano passado, eram propriedade do Benfica? Essa a grande incógnita.

Vejamos um por um a situação de alguns jogadores:

Oblak: Dizia-se que o esloveno tinha um contrato com o Benfica até 2018 com uma cláusula de rescisão de 20 M€. O que é que isto tem de verdade? Os direitos sobre Oblak são de quem? E a cláusula de rescisão, afinal, é de quanto? Como se explica, sendo verdade o que se dizia, que o guarda-redes não se tenha apresentado na data prevista e tenha antes entrado em negociações e exames preliminares com outro clube? Como se explica algo que a FIFA não permite? Por que é que o Benfica não actua? O Benfica não actua por duas simples razões, cumulativas ou não: primeiro, porque o Benfica já não manda no Benfica e depois porque, muito provavelmente, Oblak não é do Benfica ou não é na percentagem que se apregoou.

Garay – Dizia-se que os direitos sobre Garay eram em partes iguais do Benfica e do Real Madrid e que a cláusula de rescisão era de 20 M €. Afinal, o Benfica comunicou a transferência de Garay para o Zénite por 6 M €, cabendo-lhe apenas 2,4 M €! Afinal, tudo o que antes se dizia era mentira ou, pelo contrário, é mentira o que agora se anuncia? Alguém acredita que um jogador como Garay, titular da selecção argentina, tenha sido vendido apenas por 6 M €? Alguém está a ser enganado. Quem?

Siqueira – Siqueira estava no Benfica por empréstimo. A sua passagem pela Luz, de pouco mais de meio ano, valorizou enormemente o seu passe. Quanto pagou o Benfica para o ter por empréstimo? E quanto recebeu o Benfica pela valorização do passe? Terão sido estas questões devidamente acauteladas no negócio? O que sabem os sócios sobre isso?

Sílvio – Dizia-se que estava emprestado pelo Atlético de Madrid. Agora está lesionado. Onde se apresentará no início da época: em Lisboa ou em Madrid? E onde ficará? Tem o Benfica algum direito sobre ele? Aparentemente, não.

Enzo Pérez – Renovou o contrato com o Benfica antes de iniciado o Campeonato do Mundo. Diz-se que vai para o Valência. Ele nega ter conhecimento de algo, mas no Benfica ninguém se pronuncia. Primeira questão: de quem são os direitos sobre Enzo? Se são do Benfica, está o clube disposto a vendê-lo bem abaixo da cláusula penal ao tal oligarca de Singapura? Ou apenas se está à espera que as questões legais, relacionadas com a compra do Valência pelo dito oligarca, estejam resolvidas para formalizar a transferência? E nesse caso, quem ordena a transferência? A mesma pessoa que já “impingiu” um treinador português ao Valência? Que direito tem essa pessoa sobre o Benfica?

André Gomes - Foi a meio da época vendido a um “Fundo” por 15 M €. Todavia, no início da época apresentou-se no Seixal. Vai esse “Fundo” alugá-lo ao Benfica durante mais uns meses ou está o dito “Fundo” apenas à espera que se concretize a compra do Valência para se saber o destino de André Gomes?

Rodrigo – Idem. Foi na mesma altura vendido ao mesmo “Fundo” por 30 M €, mas igualmente se apresentou no Seixal por ninguém lhe ter comunicado a sua transferência para outro clube. Qual vai ser o seu futuro? Ou também ele está à espera da compra do Valência? E qual o papel do Benfica no meio de tudo isto? Ao abrigo de que contrato ficou Rodrigo na Luz depois de já estar vendido? Por quanto tempo e sob que condições? Os sócios não sabem!

Gaitan - Diz-se que vai para o Atlético de Madrid. Por quanto? De quem são os direitos sobre Gaitan? Diz-se que tem uma cláusula de rescisão de 45 M €. É para cumprir? O jogador diz que quer ficar na Luz. Se quer, então que estranha força impele o Benfica a vendê-lo bem abaixo da cláusula?

Markovic – Supunha-se que Marcovic era do Benfica. Afinal, diz-se agora que lhe pertence apenas por metade. Dizia-se igualmente que tinha uma cláusula de rescisão alta. Agora se percebe melhor porque nunca foi oficialmente revelada. Por uma razão simples: porque qualquer que seja o montante inscrito no contrato, o Benfica não tem qualquer poder negocial sobre a dita cláusula. A cláusula de rescisão é do montante que esse misterioso “comparsa” do Benfica quiser. Se esse “comparsa” achar que a valorização do jogador já mais que compensa o investimento, vende …e o Benfica aceita. E mais: porventura, estabelece no contrato com o vendedor cláusulas que numa venda futura só a ele o favorecem. Se não for assim, o Benfica que se explique. Que explique por que vendeu por 25 M € um jogador fantástico, de 20 anos, que tinha uma margem de progressão e de valorização infinitamente superior.

 

E já vamos em nove jogadores. Se a estes juntarmos Maxi (afinal, de quem é Maxi), Cardozo (idem?) e Sálvio (idem) de quem igualmente se fala, com quantos jogadores da época passada fica o Benfica? É isto um clube de futebol com uma das maiores massas associativas e adeptos do mundo ou é um simples entreposto comercial/financeiro gerido completamente à margem dos sócios?
Dir-se-á, outros vêm a caminho ou já cá estão. Quem os conhece? O que valem como jogadores? Ninguém o poderá agora dizer. Perante isto que os adeptos não exijam “milagres” a Jesus…porque “milagres” destes ninguém faz!
 
Uma coisa é certa: se os "Fundos" não forem proibidos e banidos do futebol, eles, a curto prazo, destruirão o futebol

ALFREDO DI STÉFANO

O MELHOR DE SEMPRE
 
 
O melhor de sempre da história do Real Madrid, cinco Taças dos Campeões Europeus consecutivas, oito campeonatos de Espanha, duas Taças Latinas, uma Taça de Espanha e uma Taça Intercontinental. Campeão também pelo River Plate, duas vezes, e pelos Milionários de Bogotá, quatro vezes, além de Campeão Sul-Americano. Internacional por três selecções: Argentina, Colômbia e Espanha e Bola de Ouro por duas vezes. Treinador em dez clubes um dos quais o Sporting Club de Portugal, embora por escassos meses.
 
Um dos melhores do mundo, para muitos o melhor de sempre, Di Stéfano teve a sua fase dourada entre 1956 e 1960 em que comandou a super equipa do Real Madrid na qual alinharam, durante esse quinquénio, jogadores tão extraordinários como Kopa, Didi, Puskas e Gento. 

domingo, 6 de julho de 2014

QUARTOS-DE-FINAL MENOS ESPECTACULARES QUE OS OITAVOS


 

ALEMANHA, BRASIL, ARGENTINA E HOLANDA NAS MEIAS
Holanda encuentra las 'semis' en la libreta de Van Gaal

Perdeu espectacularidade a passagem dos oitavos para os quartos-de-final. O Mundial que até ontem tinha sido muito provavelmente o melhor de sempre, ofereceu-nos nos quartos-de-final jogos pouco emocionantes, calculistas e sem grandes motivos de interesse.

O primeiro dos quatro, Alemanha-França, esteve muito longe de reeditar os grandes duelos do passado. A Alemanha marcou de cabeça, por Hummels, na sequência de um livre apontado por Kroos logo no início do jogo e depois foi aguentando o resultado até ao fim, tendo podido, pelo menos por duas vezes, ampliar a vantagem se Schürrle tivesse estado minimamente inspirado. A França esteve à beira de marcar no primeiro tempo por Benzema e também no último minuto pelo mesmo protagonista se não se desse o caso de na baliza da Alemanha estar um dos melhores guarda-redes de todos os tempos – Manuel Neuer.

A França tem uma excelente equipa, com futuro, com jogadores de grande categoria, mas a Alemanha prima como sempre pelo colectivismo, apesar de ter na suas fileiras os dois grandes jogadores deste Mundial – Manuel Neuer de que já falámos e Müller, um jogador completo: ataca, defende, passa e marca e além de tudo isso é imprevisível tanto no que refere ao que pode fazer como ao espaço que ocupa. Um jogador quase impossível de marcar. Foi ele que proporcionou a Schürles as oportunidades que este falhou. Além destes dois extraordinários jogadores, Neuer e Müller, também Hummels ocupa um lugar de eleição neste Mundial, seguramente o melhor central. Özil tem estado abaixo do seu melhor nível e Khedira também, apesar de terem sido quase sempre titulares.

O Brasil-Colômbia do qual tanto se esperava não primou pela espectacularidade mas antes pela excessiva agressividade. O Brasil entrou em campo com a manifesta intenção de não permitir por qualquer meio que os grandes nomes da Colômbia pudessem exibir o seu brilhantismo, principalmente James, disso se encarregando Fernandinho, Maicon, Paulinho e de uma maneira geral todos os que tinham de disputar bolas divididas com eles. A Colômbia parece ter ficado um pouco surpreendida com a agressividade brasileira e só tarde começou a reagir, pagando na mesma moeda e depois de já estar a perder. Vítima dessa guerra acabou por ser Neymar que abandonou o campo e o Mundial com uma vértebra fracturada.

O Brasil começou por ter a sorte de marcar cedo num canto, aproveitando Thiago Silva com o joelho uma bola que sobrevoou várias cabeças e o encontrou desmarcado sem oposição à frente da baliza. Foi só empurrar. A Colômbia acusou o golo, demorou a recompor-se e nunca o conseguiu de modo convincente, em parte por Quadrado ter estado muito desinspirado e James muito massacrado pelos médios e defesas brasileiros.

Na segunda parte David Luiz que vinha jogando com fúria, como se a sua vida dependesse do resultado daquele encontro, marcou excelentemente um livre à entrada da área e fez o 2-0. A menos de quinze minutos do fim, a Colômbia reagiu, criou algum sufoco ao Brasil acabando por fazer um golo de penalty provocado por Júlio César, porventura desnecessariamente em virtude de haver na jogada um defesa brasileiro que certamente conjuraria o perigo.

O Brasil terá feito o seu melhor jogo na prova e Colômbia, talvez por causa disso, o seu pior. Por isso, a vitória dos brasileiros não sofre contestação. A vitória no tempo regulamentar trouxe alguma tranquilidade ao Brasil e deu-lhe fundadas esperanças quanto ao que está para vir. A Colômbia, pelo contrário, acabou a chorar dando até a ideia de, no fim do jogo, ainda não ter percebido o que lhe tinha acontecido. Ela, que havia feito até ontem um Mundial melhor que o do Brasil e que certamente contava ganhar, parece ter desconhecido que ia defrontar uma equipa de Scolari. E foi isso o que derrotou a Colômbia.

Para finalizar uma palavra sobre o árbitro, o espanhol Carballo. Um mau árbitro como tantas vezes se tem visto na Liga espanhola. Não foi capaz de ter mão no jogo, deixou que em muitas jogadas se estivesse muito próximo da violência e, tendo subtilmente (às vezes nem tanto) beneficiado o Brasil, acabou por nem sequer assinalar falta a Zúñiga na jogada que vitimou Neymar. É certo que Neymar faz muita fita, muito trapezismo, mas naquela jogada poucas ou nenhumas dúvidas haveria de que foi agredido, voluntariamente ou não, com uma joelhada nas costas. Em resumo: Carballo ao seu nível …que é baixo.

Como a lesão de Neymar tenderá com o tempo a ser mitificada, convém que duas coisas fiquem para a História: a primeira, é que Zúñiga tinha por missão impedir qualquer jogada de contra-ataque iniciada por Neymar na sequência do corner. Portanto, a falta foi voluntária e intencional, no sentido de fazer colapsar a jogada. Aparentemente, foi uma falta desproporcionada, porque para conseguir o objectivo em vista não era necessário atingir Neymar com aquela violência. Isto é claro. Mas também é claro, e essa é a segunda questão que interessa ter em conta, que a agressividade posta naquela jogada é consequência do clima de agressividade presente em toda a partida, desde o princípio ao fim. E quem iniciou esse “estilo de jogo” foram os jogadores brasileiros que tinham por missão impedir de qualquer jeito as jogadas da Colômbia, nomeadamente dos seus jogadores mais criativos. Basta dizer que o Brasil fez 30 (!) faltas, muitas delas cometidas sobre James. Infelizmente, o árbitro apenas exibiu quatro cartões amarelos, dois para cada lado – Thiago Silva e Júlio César; James Rodriguez e Yepes. E o mais que se poderá dizer é que, com excepção da falta cometida por Júlio César, os restantes cartões foram exibidos por faltas incomparavelmente menos graves do que outras que não mereceram qualquer sanção especial. Em conclusão: o árbitro tem responsabilidades no que se passou, mas o Brasil semeou ventos e colheu uma tempestade cujas consequências estão ainda por se conhecer.

Nos jogos de sábado, a Argentina superiorizou-se claramente à Bélgica, uma Bélgica quase irreconhecível face àquilo que mostrou nos jogos anteriores. De sublinhar a lesão de Di Maria, absolutamente decisivo, que não voltando a jogar, como se diz, será uma grande perda para a Argentina já que ele vinha sendo, porventura até mais que Messi, o grande motor da equipa do país das pampas. Hoje, porém, a Argentina esteve melhor do que anteriormente, eventualmente em consequência das alterações introduzidas no meio campo.

No outro jogo, a sensacional Costa Rica obrigou a Holanda a grandes penalidades que, desta vez, não foram favoráveis aos homens da América Central. A Holanda foi superior durante quase toda a partida e Robben mais uma vez inigualável, embora a Costa Rica seja uma equipa extraordinariamente bem organizada. É muito difícil marcar um golo à Costa Rica, não apenas pela excelência do seu guarda-redes, Navas, mas também pela excelente organização defensiva, por isso, quando a Costa Rica fica em vantagem no marcador, dificilmente perde. Hoje, perdeu nos penalties, tendo-se assistido a uma novidade de Van Gaal que substitui no último minuto do prolongamento o seu guarda-redes titular pelo suplente Krull que, defendendo dois penalties, justificou plenamente a aposta do seu treinador.

 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O MELHOR MUNDIAL DE SEMPRE?


 

GRANDES EQUIPAS, GRANDES JOGOS

É sem dúvida um Mundial espectacular. Poucos foram os jogos, mesmo na fase de grupos, que enfastiaram o espectador. É certo que nessa fase houve equipas fracas, como os Camarões, Portugal e mais uma ou duas, mas isso não significou que, por uma ou outra razão, os jogos em que essas equipas participaram não tenham sido atractivos.

Tem sido um Mundial “aberto”, com muitos golos, muito equilibrado, onde os grandes jogadores, como quase sempre acontece, têm aparecido a marcar a diferença, quer sejam jogadores de campo ou de baliza.

Com excepção de duas ou três equipas que poderiam ter sido apuradas, a fase de grupos acabou por ditar a solução imposta pela justiça do que se fez em campo: os melhores prosseguiram, os outros foram para casa. E quando se diz os “melhores” não se pretende necessariamente dizer que os que foram apurados para os oitavos de final eram em todos os casos comparativamente superiores aos que foram eliminados. Quer-se também sublinhar o pundonor, a garra e a combatividade que sempre desempenha no futebol um papel importante, mais ainda num torneiro deste género.

Surpresas na fase de grupos só houve verdadeiramente no plano teórico, já que as classificações ao fim de três jornadas reflectem, no essencial, o que se passou no campo. Claro que as eliminações da Inglaterra, da Espanha e da Itália causam espanto, mais do que qualquer outra. Principalmente, pelo histórico dessas equipas, já que todas elas foram campeãs do Mundo, a Itália por quatro vezes. Como também é de salientar a eliminação de sete (em treze) equipas europeias logo na primeira fase. Pelo contrário, a eliminação das quatro equipas asiáticas nada tem de excepcional, assim como a passagem à fase seguinte de apenas duas (em seis) equipas africanas, dada a ingenuidade e a desorganização (e até a indisciplina) do futebol africano de selecções. Mas já é de realçar a passagem de três equipas (em quatro) da CONCAF aos oitavos de final, bem como o apuramento de 6 (em sete) da América do Sul!

Nos oitavos de final manteve-se a supremacia dos que tinham realizado melhores resultados na fase de grupos. Todos os primeiros classificados (Brasil, Holanda, Colômbia, Costa Rica, França, Argentina, Alemanha e Bélgica) foram apurados e os segundos (Chile, México, Uruguai, Grécia, Nigéria, Suíça, Argélia e Estados Unidos) foram eliminados.

Mas todos foram jogos espectaculares em que a incerteza pairou, na maior parte deles, até ao último minuto. Com excepção do França-Nigéria em que desde o início se percebia, não obstante a vivacidade posta no jogo pelos nigerianos, para que lado pendia a balança e do Colômbia-Uruguai, dada a superioridade do primeiro e a incapacidade do segundo, fortemente abalado pelo castigo a Suarez, todos os outros foram jogos disputadíssimos resolvidos no último minuto do tempo regulamentar (Holanda-México) ou do prolongamento (Argentina-Suíça, Alemanha-Argélia e Bélgica-Estados Unidos) ou nos penalties (Brasil-Chile e Costa Rica-Grécia).

De todas estas partidas, a passagem à fase seguinte mais periclitante foi sem dúvida a do Brasil, muito bafejado pela sorte (poderia ter sido eliminado no último minuto), de modo a deixar entre adeptos e adversários uma grande interrogação sobre o seu próximo futuro. Pelo contrário, a eliminação que poderia com alguma justiça ter sido resolvida ao contrário foi a do Costa Rica-Grécia não fora o desperdício dos gregos tanto no tempo regulamentar como no prolongamento e o grande guarda-redes (Navas) dos costarriquenhos.

Espectaculares foram sem dúvida o Argentina-Suíça e o Bélgica-Estados Unidos pela incerteza do resultado até ao fim e também pela grande exibição de Tim Howard. Mas emocionante foi igualmente o Alemanha-Argélia pelo brilhantismo e combatividade que os norte-africanos puseram no seu jogo.

Das equipas que passaram aos quartos-de-final, as mais consistentes são a França, a Colômbia e a Bélgica, por esta ordem. A Bélgica em último lugar pelas dificuldades que têm demonstrado na concretização – seis golos em quatro jogos e dois sofridos. Numa segunda linha vêm a Alemanha e a Holanda. A primeira, como sempre, pelo seu colectivismo e a segunda pela presença de Van Gaal no banco de Robben no campo. Que seria da Holanda sem ambos? Seguidamente vem a Argentina, dependente de Messi e de Di Maria, o Brasil, apenas porque joga em casa, e por último, distanciada destas, a Costa Rica, que já fez muito mais do que se esperava.

Mais logo e amanhã se saberá como vão as coisas ficar…

quinta-feira, 3 de julho de 2014

OS JOGADORES PORTUGUESES NO MUNDIAL DO BRASIL


 

UM POR UM

A prestação da selecção portuguesa no Mundial do Brasil foi muito má, como toda a gente reconhece. As responsabilidades têm recaído quase inteiramente sobre a equipa técnica e sobre a estrutura federativa, sem dúvida os principais culpados, mas os jogadores também não estão isentos de culpas.

Será por isso interessante analisar uma por uma a prestação de todos os que se exibiram no Brasil. Vinte e um ao todo, já que dos vinte e três seleccionados apenas Rafa e Neto não jogaram sequer um minuto.

Assim, temos:

Rui Patrício – Jogou contra a Alemanha, no jogo inaugural, e a partir desse jogo foi dado como lesionado. E dizemos dado como lesionado porque ninguém durante a partida vislumbrou o menor indício de lesão do guarda-redes português. Nesse jogo a prestação de Rui Patrício foi simplesmente deplorável, como aliás de toda a defesa. Mal o jogo tinha começado, já Rui Patrício estava a colocar a bola nos pés de Khedira com a baliza completamente desguarnecida. Só por falha de pontaria do médio germânico a Alemanha não fez o primeiro golo logo nos minutos iniciais. A intranquilidade do guarda-redes manteve-se durante toda a partida, tendo na segunda parte repetido o erro da primeira, do qual haveria de resultar o quarto golo da Alemanha. Considerando que durante a fase de apuramento Rui Patrício colocou a equipa em sérias dificuldades (Israel e Azerbaijão), a ponto de ter comprometido a sua presença no Brasil, só mesmo por teimosia de Paulo Bento Patrício poderá manter a titularidade.  

Beto – Fez o segundo jogo contra os Estados Unidos e parte do terceiro contra o Gana. Não fez nada de especial, mas também não cometeu nenhum erro. Os golos que sofreu foram mais por culpa dos médios ou da defesa do que propriamente sua. Enfim, uma participação condizente com o seu valor…que é médio. Apesar de tudo esteve melhor na baliza do que a falar em nome da selecção. De facto, somente uma completa ausência de respeito pelos adeptos o pode ter levado a dizer que os jogadores não tinham de se envergonhar daquilo que fizeram…

Eduardo - Jogou uns escassos minutos no último jogo por lesão (mais uma) de Beto. Apenas repôs a bola em jogo por duas vezes.

João Pereira – Começou o Mundial da pior maneira, cometendo nos minutos iniciais um penalty contra a Alemanha por derrube de Müller. Depois foi jogando ao seu nível…que é baixo, acabando por ser substituído no último jogo. Diga-se, todavia, em abono da verdade que, com excepção do já referido penalty do qual resultou o primeiro golo da Alemanha, não foi pelo lado dele que se desenvolveram as jogadas das quais resultaram os restantes seis golos que Portugal sofreu. De positivo, um centro na primeira parte do jogo contra os Estados Unidos que Cristiano Ronaldo desperdiçou infantilmente.

Pepe – Uma participação para esquecer. Responsável juntamente com Bruno Alves pelo segundo golo da Alemanha e depois a expulsão por volta da meia hora de jogo marcaram a presença de um jogador que não estava em condições físicas para participar no Mundial, o que agrava consideravelmente a sua propensão para a delinquência dentro do rectângulo de jogo. Responsabilidade do seleccionador que tem obrigação de conhecer o cadastro de Pepe e as condições em que são praticados a maior parte dos actos violentos que ditaram as muitas expulsões e penalizações que tem sofrido ao longa da carreia. Voltou a jogar no último jogo contra os Estados Unidos não tendo feito nada de especial nem pelo lado positivo nem pelo negativo. O facto de não pedido desculpa aos portugueses e aos colegas (publicamente) deixa antever a forte probabilidade de voltar a reincidir. Igualmente de ponderar a continuidade da sua presença na selecção tanto mais que com a idade e a natural perda de faculdades físicas é de esperar um aumento de acções violentas ou anti-desportivas fortemente prejudiciais à equipa.

Bruno Alves – Mais um jogador que não estava fisicamente em condições de participar no Mundial. No jogo contra a Alemanha foi responsável juntamente com Pepe pelo segundo golo e inteiramente responsável pelo terceiro. Na partida contra os Estados Unidos é responsável pelo segundo golo americano por ter levado uma eternidade a levantar-se, colocando em jogo Dempsey. Enfim, é um dos que deveria dizer adeus à selecção no Brasil já que tem vindo a revelar uma quebra continuada de forma, consideravelmente agravada pelas fracas prestações no Mundial.

Ricardo Costa – O melhor da defesa. Jogou meio jogo contra a Alemanha, entrando com o resultado em 3-0, e foi titular contra os Estados Unidos. Não teve responsabilidades nos golos sofridos. Inexplicavelmente, Paulo Bento retirou-lhe a titularidade no jogo contra o Gana. Foi também o jogador que se apresentou fisicamente em melhores condições.

Fábio Coentrão – Fez pouco mais que meio jogo contra a Alemanha. Lesionou-se, foi substituído e nunca mais jogou. Estava mal fisicamente e mesmo que não se tivesse lesionado não é crível que estivesse em condições de repetir as exibições do Mundial da África do Sul.  No jogo contra a Alemanha poderia ter marcado logo no início do jogo, se não fosse a dependência de Ronaldo. Em vez de rematar passou a bola a Ronaldo…que a deixou escapar pela linha de fundo.

André Almeida – Jogou pouco menos que meio jogo contra a Alemanha e outro meio contra os Estados Unidos, tendo sido substituído por lesão. Também não se apresentou nas melhores condições físicas. Chamado a substituir Coentrão como defesa esquerdo, nunca comprometeu apesar de ocupar o posto como substituto de recurso e de Ronaldo não auxiliar rigorosamente nada nas tarefas defensivas. Nenhum golo entrou ou se desenvolveu pelo seu lado. Depois da sua saída foi pelo lado esquerdo que se desenvolveram as jogadas de golo dos Estados Unidos. Nas tarefas defensivas cumpriu.

Miguel Veloso – Começou por jogar a médio contra a Alemanha, tendo depois recuado para defesa esquerdo a partir do momento em que André Almeida se lesionou no jogo contra os Estados Unidos. Como médio a sua prestação foi medíocre como medíocre foi a dos seus colegas de sector no jogo contra a Alemanha. Como defesa esquerdo defendeu mal, tentando compensar as suas deficiências defensivas com incursões atacantes pelo respectivo flanco. Fez mais de uma dezena de centros, tendo sido de dois centros falhados (contra os Estados Unidos e contra o Gana) que resultaram dois golos de Portugal. No cômputo geral, exibição medíocre.

João Moutinho – Moutinho está a léguas do jogador que foi na penúltima época que passou no Porto. Exibiu-se na selecção ao mesmo nível da época que fez no Mónaco. Ou seja, mediocremente. Falhou muitos passes, tendo de um deles resultado o golo do Gana (fatal para as aspirações da equipa portuguesa), e nunca foi o elemento do meio campo que a selecção precisava. Disse em entrevista, a propósito da sua prestação, que “não tinha de provar nada a ninguém”. É lamentável que assim seja, pois somente essa ausência de avaliação permanente pode justificar a titularidade que Paulo Bento lhe concedeu e que ele esteve longe de justificar.

Raul Meireles – Apresentou-se em más condições físicas, parecendo cansado e desmotivado. Jogou apenas os dois primeiros jogos não tendo em nenhum deles justificado a chamada à selecção, não obstante o seu passado na equipa. Contribuiu com a sua fraca prestação para o descalabro do meio campo português.

William Carvalho – Tendo aparecido como uma espécie de “messias” ou “salvador” da selecção portuguesa, mais por imposição das contingências do jogo (a multiplicidade de lesões) do que por opção de Paulo Bento, o jovem jogador do Sporting alinhou meio tempo contra os Estados Unidos e a tempo inteiro contra o Gana. Apesar de ter sido bem melhor que qualquer um dos tradicionais ocupantes do sector, William Carvalho tem limitações várias, umas eventualmente superáveis, outras não. É lento, não é criativo e tem dificuldade no passe de risco – o passe que distingue o médio de classe – por isso nunca o faz, preferindo o passe para o lado e para trás. Mas desarma bem e tem algum sentido posicional, embora neste aspecto precise ainda de aprender muito. Não é a estrela que os sportinguistas apregoam, mas tem lugar indiscutivelmente na selecção.

Ruben Amorim – Chamado à titularidade no último jogo, Ruben Amorim alinhou a médio, sobre o lado esquerdo (onde não costuma jogar), e depois a defesa direito em substituição de João Pereira. No meio campo, Amorim deu outra alegria ao jogo da selecção como o seu inteligente posicionamento e passes clarividentes. Na defesa cumpriu. Deveria ter sido titular em todos os jogos.

Nani – Tendo jogado muito pouco durante a época, duvidava-se que Nani tivesse o ritmo necessário para a competição. Esteve melhor do que habitualmente, principalmente no início dos dois primeiros jogos. Depois, na partida contra o Gana, decaiu, principalmente quando passou a ocupar as zonas mais interiores do relvado. Marcou um golo contra os Estados Unidos, acabando por ter uma prestação meritória.

Varela – Nunca alinhou de início, tendo apenas participado nos jogos contra os Estados Unidos e o Gana. Para a história fica o golo do empate contra os americanos no último segundo do jogo – o golo que impediu a desqualificação da selecção portuguesa logo no segundo jogo. Não fez muito mais…mas também não lhe deram oportunidade para o fazer.

Hugo Almeida - Lesionou-se no início do jogo contra a Alemanha, depois de ter tido uma oportunidade em que poderia ter feito mais do que fez. Foi ao Brasil para estar em campo cerca de 15 minutos.

Hélder Postiga – Foi titular contra os Estados Unidos, não tocou na bola e lesionou-se nos minutos iniciais. Inadmissível a convocatória de dois pontas de lança sem condições físicas para jogarem!

Eder – O jovem avançado do Braga acabou por alinhar nos três jogos em virtude das lesões de Almeida e Postiga. Teve tempo mais do que suficiente para mostrar o seu valor. Tem limitações várias e a equipa nada ganhou em o ter na posição de centro-avante. Tem de aguardar melhores dias.

Vieirinha – Entrou por saída de João Pereira na partida contra o Gana no decorrer da segunda parte. Animou o jogo da equipa e pareceu estar em boas condições físicas não tendo merecido, apesar disso, a preferência de Paulo Bento.

Cristiano Ronaldo – Decepcionante. Num grande palco onde os grandes artistas se exibem, Ronaldo não compareceu. É a terceira participação sem história do badalado jogador português numa fase final do Mundial. Falhou um golo contra a Alemanha quando o resultado ainda estava empatado a zero. Fez uma exibição medíocre contra os Estados Unidos. Falhou três ou quatro golos contra o Gana. Remata muito, mas com pouco ou nenhuma eficácia. Em três participações no Mundial tem três golos. Um em cada. O primeiro de penalty contra o Irão; o segundo, ridículo, contra a Coreia do Norte; o terceiro contra o Gana. Porventura, no melhor Mundial de sempre, onde as grandes estrelas brilham intensamente (Robben, Messi, Müller, James, Neymar e tantos, tantos outros), Ronaldo não apareceu. Se a jogar esteve simplesmente vulgar, a falar a sua prestação ainda foi pior. As palavras que proferiu após o jogo contra os Estados Unidos são indignas de um capitão. Ronaldo que é em grande medida um produto do marketing marcou seguramente o fim da sua fase ascensional nesta sua passagem pelo Mundial do Brasil. Se tinha pretensões a ficar no top ten da história do futebol, pode esquecer…  

 

Em resumo, a equipa portuguesa foi uma das piores do torneio como agora se está tornando evidente com o avançar da prova.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A SELECÇÃO PORTUGUESA NO MUNDIAL DO BRASIL


 

O DESPREZO PELO ESSENCIAL

Muitos foram os erros e as manifestações de incompetência que acompanharam a triste deslocação ao Brasil da selecção nacional de futebol. Desde a convocatória até ao local escolhido para sede da selecção durante o Mundial, passando pela preparação, tudo correu mal.

Como já foi dito e redito por toda a crítica é inaceitável a convocação de jogadores que além de terem tido um fraco desempenho durante a época apresentavam também problemas de ordem física impossíveis de superar no curto espaço de tempo em que se realiza o Mundial de Futebol. Como inaceitável é que se tenham deixado de fora alguns valores indiscutíveis do futebol português que apenas não foram escolhidos por atritos com o seleccionador, bem como alguns jovens promissores que, pelo menos, se encontravam em excelentes condições físicas e poderiam garantir uma presença de 90 minutos em cada jogo sem incidentes físicos. A estes preferiu o seleccionador jogadores em fim de carreira, em baixo de forma técnica e em estado físico deficiente.

As consequências destas escolhas desastradas, prepotentemente feitas pelo seleccionador, com o compadrio dos seus apaniguados ou sob a orientação dos seus tutores, estão à vista: ainda a prova não tinha começado e já havia vários jogadores no “estaleiro”, número que se foi ampliando mal soou o apito inicial do árbitro e se consolidou à medida que o jogo decorria e as duas partidas subsequentes se iniciavam.

Mas se sobre a composição da selecção nada havia a fazer depois comunicada à FIFA o mágico número de 23 participantes, já o mesmo se não poderá dizer daquilo que foi o erro fatal que desde o início acompanhou esta selecção: o mais completo desprezo pelo sagrado princípio de que o futebol é um desporto colectivo. A loucura posta à volta do nome e da figura de Cristiano Ronaldo por uma comunicação social completamente acéfala e irresponsável e a aceitação no seio da selecção desse estúpido endeusamento acabaram por ser fatais para a equipa portuguesa.

Aliás, entre a “loucura” da comunicação social e o “endeusamento” no interior da selecção da figura de Cristiano Ronaldo existe uma relação muito mais íntima do que se possa supor. O endeusamento de Cristiano Ronaldo no seio da selecção é feito por todos aqueles que carecem do seu apoio para lá continuarem e que serão certamente os primeiros a criticá-lo, quando, por força das leias da vida, deixarem de ser convocados. Mas esse endeusamento é igualmente promovido no interior da selecção pelo seu empresário como forma de manter sobre ela e sobre as estruturas da Federação o domínio e a influência que toda a gente que conhece os meandros do futebol sabe existir.

Por outro lado, Cristiano Ronaldo na sua idolatria ególatra aceita tudo isso como a coisa mais natural deste mundo e deleita-se de prazer e vaidade pela vassalagem prestada sem sequer se dar conta de que ela tem um reverso que o prejudica seriamente e o remete, como já está a acontecer, para o lugar dos simples mortais que jogam futebol igual a tantos outros…mas diferente, muito diferente, dos melhores!

De facto, esta loucura à volta de Cristiano Ronaldo e a completa secundarização da equipa como entidade autónoma, colectiva, independente no seu ser daqueles que a constituem, foi fatal para o desempenho da selecção portuguesa e há-de também, historicamente, ser fatal para Cristiano Ronaldo.

Foi fatal para a selecção portuguesa, porque o futebol é um desporto colectivo onde as individualidades podem, ocasionalmente, fazer a diferença sem que porém o colectivo alguma vez deixe de ser o essencial e o individual o secundário. Quando as prioridades e os valores se invertem, o resultado certo e seguro é a derrota. E foi isso o que aconteceu. Portugal foi eliminado na fase de grupos, apesar de objectivamente ter condições para passar à fase seguinte no grupo em que estava inserido.

E foi fatal para Cristiano Ronaldo, porque, mais tarde, quando se fizer a inventariação e a história dos grandes jogadores de futebol, dos cinco ou dez grandes nomes do futebol mundial, nunca Ronaldo figurará nessa lista em consequência do péssimo desempenho que sempre teve na grande montra do futebol mundial. Em três participações em fases finais passou sempre ao lado, nada tendo feito que particularmente o distinguisse pela positiva. E logo outros lembrarão que, com excepção de alguns lampejos no Real Madrid, também nunca ele se exibiu em grande nível noutros grandes palcos, isto é, contra grandes adversários ou em grande jogos, como já aconteceu nas finais da Champions em que participou.

O futuro da selecção passa, portanto, pelo seu rejuvenescimento, pelo regresso aos valores do colectivismo e, se Cristiano Ronaldo nela quiser continuar, pela sua colocação no seu verdadeiro lugar, ou seja, um lugar exactamente igual ao dos seus colegas! Para isso será necessário mudar muita coisa na Federação – aliás, se os responsáveis pela selecção tivessem um mínimo de dignidade demitiam-se logo à chegada a Lisboa – e mudar também o seleccionador, escolhendo um profissional verdadeiramente independente que compreenda o que é a selecção nacional de futebol – que não é uma equipa de clube, nem uma equipa da Federação. É muito mais do que isso, pela afectividade e pelo entusiasmo que o seu desempenho suscita em milhões de portugueses!

A vitória tangencial de ontem contra o Gana revelou novamente um Cristiano Ronaldo incapaz de fazer a diferença, com perdas sucessivas de golos que a terem sido concretizadas poderiam, não obstante o triste espectáculo que esta selecção nos tem dado, ter garantido a passagem à fase seguinte.

Cristiano Ronaldo fez 23 remates no Mundial e marcou um golo. Participou em três fases finais e apenas marcou um golo em cada uma delas. São recordes lamentáveis que espelham bem, infelizmente, o que normalmente acontece a uma equipa que esquece o princípio fundamental do futebol – um jogo colectivo!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

AS DERROTAS DE ESPANHA E DE PORTUGAL NO MUNDIAL DE FUTEBOL


 

DOIS RESULTADOS QUASE IDÊNTICOS DUAS ATITUDES COMPLETAMENTE DIFERENTES

No segundo dia da primeira jornada da fase de grupos do Mundial de Futebol de 2014 a Espanha foi cilindrada por uma notável Holanda por um expressivo 5-1, algo que não acontecia à “Roja” há muitas décadas.

O orgulho espanhol, campeão do mundo e bicampeão europeu, ficou profundamente ferido mais ainda numa época em que a Espanha corre o sério risco de se desagregar territorialmente e em que está simultaneamente sendo posta em causa a legitimidade das instituições decorrentes do processo de transição que marcou o fim do franquismo e o começo da democracia representativa de estilo ocidental.

Perante o descalabro da derrota para a qual contribuíram apenas parcialmente alguns erros técnicos dos seus jogadores, a selecção espanhola, jogadores, responsáveis técnicos e dirigentes, não buscaram encontrar em comportamentos alheios a justificação do acontecido, antes assumiram com dignidade e coragem a responsabilidade individual e colectiva da derrota, pedindo desculpa ao povo espanhol pela vergonha e tristeza por que o fizeram passar por aqueles noventa e tal minutos da Arena Fonte Nova de Salvador.

Dias mais tarde, a selecção portuguesa de futebol, depois de uma insuportável campanha de propaganda de quase 24 horas por dia a cargo dos media, principalmente dos canais de televisão, que não se cansavam de enaltecer os seus méritos e de endeusar Cristiano Ronaldo, foi positivamente ridicularizada naquele mesmo estádio por uma imponente Alemanha que a bateu por 4 a 0, apesar de ter jogado toda a segunda parte em jeito de passeio.

Contrariamente ao que se passou com a selecção espanhola, a derrota da selecção portuguesa não assentou apenas na indiscutível superioridade técnica e físico-táctica da equipa alemã, mas também no comportamento disciplinarmente indecoroso Pepe, nos repetidos erros individuais de Patrício e Alves, no vedetismo oco de Cristiano Ronaldo e na ausência de atitude de todo o conjunto, além obviamente das limitações estratégico-tácticas do seleccionador.

Perante um tal grau de responsabilidades nenhum jogador, nenhum responsável técnico, nenhum dirigente assumiu a responsabilidade pela derrota nem apresentou um pedido de desculpas ao povo português amante da selecção. Pelo contrário, o seleccionador manteve-se na sua obscura arrogância, refugiando-se num conceito de saber incontestável que não admite discussão, os dirigentes, principescamente pagos e rodeados de mordomias, eclipsaram-se e os jogadores, instrumentalizados ou não, tentaram ridiculamente atribuir ao árbitro a responsabilidade pelo que aconteceu, enquanto Cristiano Ronaldo, à semelhança do que fizera durante todo o jogo, ia tomando as devidas precauções para que a sua imagem física não saísse prejudicada do confronto.

Esta sobranceria, esta arrogância estúpida, feita de ignorância e desprezo, tem muito a ver com o modo como o futebol, principalmente o futebol da selecção, é entendido entre nós. O futebol, apesar de interessar a quase todos e de condicionar emocionalmente a vida de tanta gente, está excluído da democracia, como algo sobre o qual apenas os iniciados e os entendidos podem intervir, fundamentalmente para espalhar a palavra dos "sacerdotes supremos" inatacáveis e incriticáveis pelo seu imenso saber.

E, assim, uma legião de comentadores acéfalos e “situacionistas” vai não somente endeusando os artistas do jogo, qualquer que seja a sua real valia ou merecimento, e simultaneamente resguardando de qualquer crítica os tais “sacerdotes supremos” por maiores que sejam os seus erros. E aquilo que a todos parece óbvio pela evidência das respectivas manifestações, deixa de o ser em futebol porque outra é a decisão do seleccionador, que os tais comentadores acéfalos logo se encarregam de justificar do modo mais imbecil.

Como se explica que não haja qualquer alteração entre a equipa que alinhou no euro 2012 e da do Mundial deste ano? São os jogadores que constituem a equipe de uma categoria tão excepcional que nenhum outro nos dois anos que entretanto decorreram pode aspirar a integrá-la? E continuam a ser intocáveis qualquer que seja a sua forma? Ou o seu estado físico? Ou a época que fizeram nas respectivas equipas de clube?

E como se explica que jogadores de reconhecida classe nem sequer tenham sido convocados para fazer parte dos eleitos? E como se explica que em vinte e três convocados a selecção não tenha, em certos lugares, dois jogadores para a mesma posição? E como se explica que face ao primeiro esforço a sério, e que nem sequer foi nada de extraordinário dado o ritmo que a Alemanha “não impôs” na segunda parte, logo três dos convocados e utilizados tenham ficado inoperacionais para o resto do Mundial por lesões musculares? E como se explica que um jogador cadastrado com dezenas de expulsões, muitas delas por agressão, não tenha sido severamente avisado do que não poderia fazer? E como se explica que a equipa tenha chegado tão tardiamente ao Brasil e ainda por cima se tenha alojado numa zona geográfica que nada tem a ver, do ponto de vista climatérico, com os locais onde se iriam realizar os jogos da fase de grupos?

A tudo isto o seleccionador, os jogadores e os dirigentes têm de responder racionalmente e não com respostas imbecis como são normalmente aquelas que usam nas conferências de imprensa.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

AS ESCOLHAS DE PAULO BENTO


 

A DÚVIDA LEGÍTIMA
 

 Mundial 2014: Paulo Bento anuncia os 23 eleitos para o Brasil


Paulo Bento faz questão de alardear a sua completa independência nas decisões que toma como seleccionador nacional, quer no respeita à escolha dos jogadores seleccionados, quer nos jogos a realizar, quer ainda na localização dos estágios, enfim, independente em tudo quanto diga respeito à selecção nacional.

Não se trata de pôr em causa a palavra de Paulo Bento, trata-se apenas de explicar que Paulo Bento move-se num meio – o meio do futebol – onde hoje ninguém é independente. Se os clubes pequenos não são independentes – e toda a gente sabe porquê – e se os próprios grandes clubes também já deixaram de o ser, como pode a Federação Portuguesa de Futebol garantir essa independência a Paulo Bento? Se os grandes empresários – ou deixando-nos de sofismas – se o grande empresário do futebol europeu impõe a sua vontade ao Benfica, ao Porto e ao Sporting como pode Paulo Bento fugir a essa influência se os interesses do dito empresário também estiverem em causa na selecção nacional?

Dito isto, a lista dos trinta deixou de fora alguns jogadores jovens que lá deveriam ter figurado, não incluiu um jogador consagrado como Dani (relativamente ao qual Paulo Bento tinha obrigação de encontrar uma solução sem perder a face do mesmo modo que Scolari também soube, em seu tempo, encontrar uma solução para Maniche) e não deveria ter integrado Quaresma se a decisão subsequente do treinador fosse a de não o incluir nos vinte e três definitivos. De facto, Quaresma já não é um jovem, é um jogador com trinta anos que deveria merecer algum respeito ao seleccionador. Ou não o incluía na lista dos trinta ou, incluindo-o, deveria tê-lo seleccionado. Aliás, é opinião generalizada que Quaresma pode fazer falta. E não venham com a conversa do costume sobre a personalidade do jogador, porque o que a selecção mais tem é jogadores com excesso de personalidade e com falta de personalidade. Portanto, Quaresma não é muito diferente dos outros…

Quanto aos demais, estranha-se que Paulo Bento se satisfaça com um número tão reduzido de médios, apenas cinco, já que Rafa não é de forma alguma um médio. Se Portugal vier a ter uma campanha razoável na fase de grupos essa falta de médios vai necessariamente fazer-se sentir e Paulo Bento já nada então poderá fazer. Em contrapartida, os pontas de lança estão em excesso…e infelizmente todos de categoria abaixo do desejável. E quanto aos extremos ver-se-á melhor daqui a algum tempo o que vai acontecer: isto é, depois de se saber o que realmente se passa com a condição física de Ronaldo e depois de conhecer a forma com que Nani se vai apresentar em campo, tendo em conta a época que fez.

No domingo passado, no programa play-off, António Oliveira acertou em tudo o que disse sobre os seleccionáveis por Paulo Bento, tendo apenas deixado a dúvida sobre a escolha entre Rafa e André Gomes. Sobre estes limitou-se a insinuar que, apesar de representados pelo mesmo empresário, a balança deveria pender para o lado de Rafa por André Gomes já ter colocação assegurada na próxima época. Também acertou…Fala que sabe!

Dito isto, e em conclusão, não se pode supor que Portugal tem uma boa selecção. É apenas uma selecção média que vai ter grande dificuldade em passar a fase de grupos. Verdadeiramente, somente Ronaldo, Coentrão, Moutinho e, eventualmente, Pepe têm categoria mundial. Se Tiago e Dani também estivessem presentes, pelo menos meia-equipa seria de grande nível. Assim, ver-se-á dentro de pouco tempo o que vai acontecer…                                                         

terça-feira, 20 de maio de 2014

A ÉPOCA DO BENFICA


 

SIM, MAS …

 

O Benfica fez uma excelente época. Ganhou todas as provas nacionais e perdeu a final a Liga Europa, competição em que participou por eliminação da Liga dos Campeões. Nunca outra equipa portuguesa havia ganho as três provas nacionais desde a introdução da Taça da Liga, há sete épocas, no calendário futebolístico nacional, embora o F C do Porto tenha ganho, com Villas-Boas, na mesma época duas provas nacionais (Campeonato e Taça de Portugal) e uma europeia (Liga Europa).

As vitórias do Benfica são todas incontestáveis. Foi a equipa mais regular no Campeonato Nacional, vencendo-o com 74 pontos, deixando o Sporting a 7 e o Porto a 13! A vitória da Taça de Portugal ainda é mais concludente: para chegar à final o Benfica eliminou o Sporting e o Porto. E quanto à Taça da Liga, embora o seu formato se destine manifestamente o favorecer os “grandes”, o Benfica para chegar à final teve no seu percurso de eliminar o Porto, o que significa que também esta vitória não foi isenta de dificuldades.

No que respeita à Liga Europa, prova a que o Benfica acedeu – é bom não esquecê-lo – por ter sido eliminado da Liga dos Campeões na fase de grupos, o percurso do Benfica até à final foi igualmente excelente na medida em que teve de se bater, entre os quatro adversários que lhe calharam em sorteio, com duas grandes equipas – o Tottenham (sexto classificado da Liga Inglesa) e a Juventus (campeão de Itália) -, além de ter eliminado o segundo classificado do campeonato grego e o sétimo do campeonato holandês. Na final, porém, o Benfica ficou aquém das expectativas, acabando por ser derrotado no desempate por grandes penalidades pelo Sevilha, quinto classificado do Campeonato espanhol a 27 pontos do campeão. Embora tenha sido manifestamente prejudicado pela arbitragem e tenha jogado desfalcado de três dos seus principais jogadores, por castigo, a verdade é que mesmo assim o Benfica tinha obrigação de fazer melhor: ser mais eficaz durante o jogo e mais competente na marcação das grandes penalidades. A final de Turim ficará para sempre na história do Benfica como a final que o Benfica “tinha obrigação” de ganhar e não ganhou. A derrota de Turim, apesar de decidida por grandes penalidades, é desprestigiante para o Benfica. É desprestigiante para um clube com o palmarés do Benfica ser eliminado pelo quinto classificado da Liga espanhola!

Ao fim de cinco épocas no Benfica, Jorge Jesus venceu 2 campeonatos, três Taças da Liga e uma Taça de Portugal.

Na Europa, o comportamento da equipa tem sido meritório, fundamentalmente na Liga Europa, e não tanto na Liga dos Campeões, onde apenas por uma vez passou a fase de grupos. Na Liga Europa, no primeiro ano de Jesus, o Benfica chegou aos quartos-de-final, tendo sido eliminado pelo Liverpool (2-1 e 1-4). Na época seguinte, foi eliminado pelo Braga nas meias-finais, depois de ter sido eliminado da Liga dos Campeões na fase de grupos, pelo Schalke 04 e pelo Lyon. Na terceira época de Jesus, o Benfica passou a fase de grupos da Liga dos Campeões, tendo sido o primeiro classificado com 12 pontos (o dobro do ano anterior) à frente do Basileia, do Manchester United e do Otelul, acabando por ser eliminado nos quartos-de-final pelo Chelsea, depois de ter eliminado o Zenit nos oitavos.

A carreira do Benfica na Liga dos Campeões, com Jesus ao leme, não tem sido boa. Em 2010/2011, foi eliminado na fase de grupos pelo Schalke 04 e pelo Lyon. O mesmo aconteceu em 2012/2013, também eliminado na fase de grupos, com 8 pontos, pelo Barcelona e pelo Celtic de Glasgow, tendo transitado para a Liga Europa, na qual chegou à final, sendo derrotado pelo Chelsea por 2-1. Em 2013/2014, o Benfica voltou a ser eliminado, na fase de Grupos, pelo PSG e pelo Olympiakos, desta vez com 10 pontos, tendo novamente transitado para a Liga Europa, onde teve o desfecho que se conhece. Somente em 2011/2012 o Benfica passou a fase de grupos e superou a primeira eliminatória, tendo sido eliminado na seguinte (quartos-de-final), devendo esta considerar-se a melhor participação internacional da equipa na era Jorge Jesus.

Em conclusão, nas cinco épocas de Jesus no Benfica, em quatro participações na Liga dos Campeões, somente por uma vez o Benfica passou a fase de grupos, enquanto na Liga Europa, em quatro participações, o Benfica foi por duas vezes à final, atingiu a meia-final uma vez (tendo sido eliminado pelo Braga) e ficou uma outra pelos quartos-de-final (eliminado pelo Liverpool). Donde se conclui que o Benfica de Jesus está mais vocacionado para jogar a Liga Europa do que a prova rainha do futebol europeu, embora os resultados obtidos pela equipa nestes últimos cinco anos, na Europa e especificamente na Liga Europa, sejam incomparavelmente superiores aos dos últimos dezanove anteriores à chegada de Jesus ao Benfica!

No plano interno, o Benfica com Jesus perdeu 3 campeonatos, quatro Taças de Portugal, uma Taça da Liga e uma Supertaça, o que, feitas as contas, dá, em termos absolutos, um rendimento ligeiramente inferior a 50%, embora – e é sempre bom não esquecê-lo – os resultados do Benfica nestes últimos 5 anos sejam incomparavelmente melhores do que os das duas décadas anteriores.

O futuro próximo do Benfica está, assim, muito dependente do que acontecer na próxima época e do modo como o Porto irá reagir ao desaire deste ano. É que, também é bom não esquecê-lo, apesar de Porto estar em quebra há cerca de três anos, neste últimos cinco anos da era Jesus no Benfica a média de pontos obtidos pelo FCP no campeonato nacional é de 75, 125 por época, enquanto a do Benfica se fica pelos 71,8. O que quer dizer que o Benfica tem de melhorar, relativamente a este ano – ano em que foi campeão -, se quiser ter a garantia de que voltará a ganhar.

Jesus tem indiscutíveis méritos, mas também tem indiscutíveis defeitos que tarda em corrigir. E já nem sequer nos referimos à manifesta egolatria do treinador e à sua conhecida “ciência”, que por vezes parece querer encarar os jogadores como simples marionetes de um plano “cientificamente” estabelecido que sempre resultará se for bem executado, cabendo os méritos do sucesso quase por inteiro ao conceptualizador e muito pouco, ou quase nada, aos executantes, porque essa forma de estar no futebol de Jesus faz parte da sua personalidade e será obviamente incorrigível. Mas referimo-nos àquilo que pode ser corregido e não é. Jesus deveria perguntar a si próprio por que razão as derrotas do Benfica acontecem nos momentos decisivos, quase sempre com equipas grandes ou em grandes provas do futebol internacional. Por que razão o Benfica quase nunca falha com os mais fracos e falha tantas vezes com os mais fortes ou com os seus iguais. Tem de haver uma explicação científica (sem aspas) para isto e é na busca dessa explicação que Jesus deveria gastar uma parte do seu tempo, tanto mais que não faltam entre aqueles que percebem de futebol e que actuam relativamente a Jesus e ao Benfica sem qualquer desejo de vingança e sem qualquer propósito mesquinho explicações que parecem válidas e que Jesus se recusa a considerar.

No futebol tudo pode acontecer e ainda bem que acontece porque é isso que faz com o futebol continue a ser um jogo. Mas quando as mesmas coisas acontecem várias vezes, tanto no futebol como na vida, temos obrigação de encontrar uma resposta racional para essas “coincidências”!