quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ECOS DA VITÓRIA DO BARCELONA EM MADRID



AS TÁCTICAS DE MOURINHO

 Enquanto o Real Madrid vai lambendo as feridas de mais uma derrota contra o Barcelona na era Mourinho, a grande equipa catalã prepara-se para disputar a final do Mundial de clubes, no Japão, contra o Santos de Neymar.

Florentino Pérez no tradicional jantar de Natal do Real Madrid voltou a defender Mourinho em termos inusitados no grande clube merengue, a ponto de ter dito que a passada vitória na “Copa del Rey” foi para muita gente a mais importante na história da Taça de Espanha.

Perante este e outros tantos elogios, que parecem de todo despropositados face aos objectivos que o clube e o treinador haviam fixado para a época 2010/2011, duas conclusões se podem retirar das palavras do presidente do Real Madrid: primeiro, a de que ele tem o seu futuro no clube cada vez mais hipotecado ao que Mourinho conseguir fazer; e segundo, a de que o apoio prestado ao treinador em termos nunca antes concedido visa retirar-lhe qualquer desculpa semelhante à que o ano passado apresentou para justificar ter ficado aquém das metas ambicionadas pelos “aficionados”.

A verdade é que apesar da “limpeza de balneário” exigida por Mourinho no fim da época passada, que teve como consequência mais sonante a dispensa de Jorge Valdano como director desportivo, continua a saber-se na imprensa – em alguma imprensa de qualidade – o que se passa no balneário do Real Madrid.

Valdebebas está assim longe de ser aquele “bunker” sonhado por Mourinho como local onde no mais completo segredo pudesse gizar as suas famosas tácticas, tanto no que elas têm de jogo jogado, como de “jogos” de outra natureza.

Soube-se logo após a derrota contra o Barça, que Mourinho antes do jogo foi tocado por um dilema “hamletiano” que acabou por resolver “politicamente”.

Por um lado, Mourinho sabe que não pode impedir a maior posse de bola do Barcelona, realize-se o jogo em Camp Nou, no Bernabéu ou em terreno neutro. Mas sabe também que não pode em Madrid, perante os “aficionados merengues” remeter-se a uma táctica de equipa pequena, fundamentalmente preparada para defender, que busca num desequilíbrio do adversário ganhar vantagem no marcador.

Por isso idealizou aquilo a que os seus jogadores pejorativamente chamam o “trivote” e que ele “politicamente” denomina “triângulo de pressão ofensiva”, exactamente para dar a ideia de que não é uma táctica defensiva.

Em Valência, o dito trivote funcionou com Xabi, como vértice, atrás de Lass e Khedira, nos outros dois ângulos do triângulo.

Em Madrid contra o Barcelona, sacrificar Özil, o jogador mais criativo da equipa, seria uma demonstração de fraqueza e de medo que os adeptos não perdoariam. Então, Mourinho viu-se forçado a substituir Khedira par Özil. Só que, contrariamente ao que se passou em Mestalla, em Chamartin seria Özil o vértice do dito triângulo, tendo-lhe sido atribuídas nessas novas funções tantas tarefas (apoiar criativamente os ataques de Di Maria, Cristiano e Benzema), além das que tinha que desempenhar como vértice do triângulo, que o pobre rapaz caiu exausto, muito antes do fim do jogo, acabando por ser substituído por Khedira.

Mas não foi tudo: preocupado, como sempre, com as jogadas de Messi pelo centro do terreno, deu instruções a Lass e Xabi, para que se mantivessem no centro do campo, bem próximos de Pepe e de Ramos, de modo a fechar os espaços por onde Messi pudesse passar.

Concluindo, o trivote de Mourinho contra o Barça, apesar da inclusão de Özil, acabou por ser muito mais fechado e compacto que o de Valência. Querendo enganar a “afición”, Mourinho acabou por se enganar a  si próprio.

De facto, o pobre do Özil ficou com a missão impossível de acompanhar Benzema na pressão a Busquets e a Piqué; de auxiliar Cristiano e Di Maria quando estes fizessem pressão sobre os laterais; e, finalmente, de colocar-se entre Lass e Xabi, perto dos centrais, quando o Barça atacasse pelo meio.

Para finalizar, Coentrão e Marcelo não tinham autorização para subir, como, de resto, já tínhamos referido no último post.

Mourinho queria defender com seis atrás na primeira parte, e no segundo tempo com todos, se as coisas estivessem a correr bem.

Tudo foi por água abaixo quando Messi, exactamente pelo centro do terreno, fez aquilo que Mourinho temia que ele viesse a fazer.

E Mourinho não esteve com meias medidas: culpou os jogadores pelo sucedido. Tanto trabalho, tanta imaginação táctica, para nada. Culpou-os inclusive de não terem derrubado Messi: “Numa bola dividida, ou os meus jogadores a ganham ou a bola tem de ficar ali”. Eis a máxima de Mourinho…

As reacções não se fizeram esperar. Casillas, a voz livre do balneário do Madrid, já disse que o Barcelona não pode constituir uma obsessão.

A verdade é que para Mourinho continuará a ser. As tácticas postas em campo no último jogo demonstram-no. Mourinho não abdicou num milímetro que fosse das suas ideias, mesmo quando transigiu na concessão da titularidade a Özil em vez de Khedira. Trocou os jogadores por razões “políticas” mas manteve tudo na mesma, com a agravante de ter entregado a Özil uma missão impossível, uma missão que ele manifestamente não poderia cumprir.

Mas isto demonstra também que Mourinho não é tão inteligente quanto se supõe Tem antes aquilo a que em português se chama manha, algo que está longe de ser uma companhia recomendável.




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