sábado, 11 de janeiro de 2014

EFABULAÇÕES SOBRE A VIDA DE EUSÉBIO


A LENDA VAI TOMANDO O LUGAR DA HISTÓRIA

Muito se tem falado de essa coisa de “Eusébio ser património nacional”. Ele também falou disso, mas sempre com aquela ironia africana tão Xipamanine e Mafalala. Dizem-se coisas absolutamente contraditórias sobre as frustradas transferências de Eusébio para a Itália, primeiro para a Juventus e depois para o Inter de Milão.

É verdade que a Juventus manifestou interesse em ter Eusébio nas suas fileiras em 1964 (e não em 1966, como já vi para aí escrito). Nessa altura já Eusébio havia ganho uma Taça dos Campeões Europeus (1962) e já tinha participado noutra final da mesma Taça em 1963. Na época seguinte 1963/64, o Benfica ganhou o campeonato, mas foi estrondosamente eliminado pelo Borússia de Dortmund (ganhou 2-1, na Luz e perdeu 5-0, em Dortmund, sem Eusébio).

Foi neste contexto que surgiu a proposta italiana. À época os jogadores não eram livres de se transferir como hoje. Os contratos não tinham prazo e quando passaram a ter o clube que detinha o passe podia sempre exercer o direito de preferência pela ridícula quantia de 10% do valor da proposta. Eram uma espécie de servos da gleba, com a diferença de que não estavam ligados à terra mas ao clube. Portanto, Eusébio só se transferiria se o Benfica autorizasse (nessa época a FIFA não intervinha nestas coisas; noutra ocasião falar-se-á aqui do caso Puskas, que não é verdadeiramente uma excepção ao afirmado). E muito provavelmente o Benfica não autorizaria.

Mas há mais. O Eusébio como todos os mancebos da sua idade tinha de cumprir o serviço militar. E ninguém era autorizado a emigrar sem primeiramente cumprir o serviço militar. Era por isso que os jovens dessa época “iam a salto” sempre que queriam trabalhar no estrangeiro. Eusébio não o poderia fazer, não poderia “ir a salto”, porque sem a autorização do clube a que pertencia não poderia “trabalhar” no estrangeiro.

Estas as razões por que Eusébio não foi para a Juventus. Nunca à época ou posteriormente ouvi dizer que Salazar se tivesse metido nisto. Nem precisava de o fazer. As leis vigentes encarregavam-se de assegurar que Eusébio não sairia. Aliás, Eusébio, que se saiba, apenas foi recebido por Salazar duas vezes, uma em 1962, juntamente com a equipa do Benfica, para assinalar a vitória na Taça dos Campeões Europeus e outra em 1966, juntamente com os colegas de selecção, para comemorar o terceiro lugar no Mundial de Inglaterra.

Basta atentar nas datas para logo se perceber que essa coisa do “património nacional” a propósito da transferência da Juventus não passa de uma fábula.

Mais tarde, depois do Mundial de 1966, no defeso, apareceu a tal proposta do Inter de Milan e ao que parece, dados os montantes envolvidos – um milhão de dólares (hoje ninguém imagina o que era à época um milhão de dólares por um futebolista!) – o Benfica estaria na disposição de vender. Eusébio foi a Milan e quando estava iminente a transferência, a Federação Italiana (ou o Governo italiano, não posso precisar com rigor) proibiu as transferências de estrangeiros para o futebol italiano. Porquê? Porque os italianos imputaram a eliminação da Squadra Azzurra na fase de grupos do mundial de 66 (curiosamente em consequência do resultado do jogo contra a Coreia do Norte) à proliferação de jogadores estrangeiros no futebol italiano, nomeadamente na Série A.

Esta a razão por que se gorou a segunda hipótese de transferência para a Itália.

Repare-se que a propósito desta gorada transferência nunca ninguém responsabilizou o regime (Salazar). Mas se não havia entraves à sua saída em 1966 (porque já tinha cumprido o serviço militar) por razão haveria em 1964 de haver outras proibições que não as que resultavam do incumprimento do serviço militar?  

É evidente, porém, que Eusébio não saiu para outro lado,  depois de frustrada a transferência para o Inter de Milão, porque o regime que vigorava no futebol era como acima já foi dito de completo desrespeito pelos direitos do jogador. Mas isso não acontecia apenas em Portugal. Acontecia em toda a parte, embora alguns clubes noutros países, principalmente os clubes latino-americanos da Argentina e do Brasil e também nalguma medida em França (Kopa, por exemplo, foi autorizado a transferir-se do Reims para o Real Madrid), fossem mais permissivos.

De qualquer modo, Eusébio beneficiou deste “assédio”, melhorando significativamente a partir de 66 a sua situação no Benfica, tendo na negociação sido acompanhado pelo recém-licenciado em Direito, Silva Resende, jornalista de A Bola, sportinguista e grande admirador de Salazar e da Ditadura. Só que as melhorias daquele tempo, comparadas com as que beneficia hoje um grande crack, quando renegoceia o vínculo contratual, não têm nenhum significado, mesmo fazendo o cálculo actuarial do valor do dinheiro.

Quanto ao Panteão Nacional, apenas uma pequena nota: será que Eusébio gostaria de lá estar? Será que não preferiria outro “palco”, o seu “palco” predilecto?


E para terminar, toda a gente parece esquecer que Eusébio também era Moçambicano. Optou ficar em Portugal, mas sempre teve muito orgulho nas suas origens. Seria de muito bom tom que isto não fosse esquecido, principalmente pelo Benfica, pelos seus adeptos, pela Federação e pelos desportistas em geral, já que dos políticos, sempre prontos a aproveitar-se de tudo que os possa beneficiar, nada se pode esperar.

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