DUARTE GOMES

DUARTE GOMES

Numa altura em que tanto se fala
em Rui Costa como presidente do Benfica, a única justificação que me ocorre
para que tal acontece é ser actualmente um dos vice-presidentes da lista
vencedora, a lista de Vieira.
Aparte isto não vejo mais nada
que o possa justificar. E no que respeita à razão acima referida ela carece de
legitimidade substancial porque os sócios, que votaram maioritariamente na
lista de que Rui Costa fazia parte, votaram em Vieira contra Noronha Lopes.
Isto para dizer que o que sob este ponto de vista se aplica a Rui Costa
aplica-se por igualdade de razões a qualquer outro vice-presidente em funções.
Assim sendo, por esse lado o que
os membros da lista vencedora, actualmente na direcção do Benfica, na presente
situação devem fazer se Vieira se demitir ou ficar inibido de exercer funções é
pedir a demissão em bloco e pedir eleições antecipadas, de preferência em
Outubro.
Quanto ao mais, Rui Costa não reúne
nada que o justifique como futuro presidente do Benfica. Não apenas por ter
muito sono, como referia, durante a primeira passagem de Jesus pelo Benfica,
com conhecimento de causa, um conhecido comentador desportivo, hoje no Canal 11,
mas também por o seu tão apregoado benfiquismo ter muito que se lhe diga.
O Benfica não deve nada a Rui
Costa, antes pelo contrário. É certo que Rui Costa fez a formação no Benfica e
foi campeão do mundo de sub 18. É verdade, como outros a fizeram e alguns
outros também foram campeões do mundo, alguns até por duas vezes, e não será
apenas por isso que os seus clubes de então lhes ficaram eternamente gratos.
Depois desse êxito Rui Costa foi
emprestado ao Desportivo de Fafe onde esteve uma época. No fim da época
regressou ao Benfica, com Eriksson como treinador, primeiro, e depois com Toni.
Esteve três épocas no Benfica. A última foi muito agitada. Esteve para rumar a
Alvalade, como Paulo Sousa e Pacheco, lamentou-se publicamente de não ser como
Paulo Sousa e fez muita pressão para sair para a Itália (se é que não ficou a
troco de ter garantida a saída no fim da época), que era na altura o campeonato
que estava na moda. Foi vendido por 1milhão e duzentos mil contos, aos preços
nominais de hoje, cerca de 6 milhões de euros. Em conclusão: esteve três anos
como sénior na equipa principal do Benfica.
Depois esteve sete épocas na Fiorentina
(1994/ 2001) e mais cinco épocas no Milan (2001/2006), ao todo 12 épocas! Com
mais três no Benfica e uma no Fafe, por empréstimo, Rui Costa completou esta
fase da sua carreira fazendo 16 épocas!
É com esta idade, já com direito
à “reforma”, que Rui Costa regressa ao Benfica, depois de esgotada a aventura milanesa,
muito pela chegada em grande de Kaká, que Rui Costa se apresenta no Benfica
para encerrar, bem pago, a sua carreira, ao fim de mais duas épocas.
Como se vê, se dúvidas houvesse
não é o Benfica que tem qualquer dívida para com Rui Costa. Muito pelo
contrário, é Rui Costa que tem perante o Benfica ma grande dívida, onde jogou
apenas três épocas quando era muito jovem e mais duas quando já estava na idade
da “reforma”.
Depois disso passou a ser tratado
principescamente por Luís Filipe Vieira com salários milionários, primeiro em
funções que nem ele sabia bem para o que serviam ou em que consistiam e depois
em funções com retribuição híper inflacionada relativamente ao trabalho prestado.
Desde há dois anos, mais ou menos, Rui Costa passou a ser o designado sucessor
de Vieira como se o Benfica fosse uma monarquia de pandeireta.
Parece não haver dúvidas de que
Luís Filipe Vieira chegou ao fim da linha como Presidente do Benfica.
O Benfica descaracterizou-se
muitíssimo nos últimos quatro mandatos presidenciais – Manuel Damásio; Vale e
Azevedo; Manuel Vilarinho e Luís Filipe Vieira, embora diferentes e com
responsabilidades diferenciadas.
Desde que se realiza o campeonato
nacional de futebol 1934/35, competição em que todos os clubes jogam contra
todos, o Benfica começou, na primeira década, por dividir as vitórias com o FC
Porto (3 para cada), ficando ligeiramente abaixo do Sporting nas duas décadas
subsequentes e sempre acima do Porto, acabando por firmar a sua hegemonia nas
três décadas seguintes, sempre muito à frente do Porto e do Sporting, para
decair, como nunca antes tinha sucedido, nas última década do século XX e na
primeira do século XXI, em que ficou muito atrás do FC Porto, somente tendo
voltado a igualá-lo na década que terminou em 2019/20.
Vistas as coisas numa outra
perspectiva, igualmente reveladora da descaracterização do Benfica no plano
desportivo e associativo, nas 27 épocas correspondentes aos mandatos dos
presidentes acima referidos o Benfica apenas ganhou 8 campeonatos, menos de um
terço, enquanto o Porto ganhou 16, o Sporting 3 e o Boavista 1.
Como acima se disse, todos os que
governaram o Benfica durante aquele período são responsáveis, cada um a seu
modo, e tanto mais quanto mais dilatados foram os seus mandatos.
Damásio, que governou o Benfica durante um
mandato (3 anos), veio para o Benfica como quem vai para uma festa da
“socialaite”: fez do clube um divertimento, endividou-o, destruiu uma equipa
vencedora (que herdou com o campeonato em andamento), contratou os jogadores
mais vulgares da história do Benfica e acabou por perder as eleições para
alguém (Vale e Azevedo) que se veio a revelar como um dos maiores oportunistas
que passou pelo futebol português: assaltou o Benfica e deixou o clube falido à
beira da extinção. Afastado do Benfica pela via eleitoral ao fim de um mandato
(3 anos), sucedeu-lhe com propósitos regeneradores Manuel Vilarinho que
registou durante o seu mandato, também de 3 anos, a pior classificação de
sempre do SLB. Com Vilarinho ao leme, o Benfica entrou no ciclo dos
construtores civis, dos homens de negócios de tipo “pato bravo”, de que Luís
Filipe Vieira é o principal intérprete e o que por mais tempo conservou o
poder: vai para 18 anos.
Com Vieira o Benfica ganhou
infra-estruturas de primeiríssima qualidade, endividou-se como nunca, fez
receitas gigantescas com as vendas de jogadores que passaram a ser comprados
não para dar vitórias ao Benfica, mas para garantir excelentes revendas. Negócio
reforçado nos últimos anos com as vendas da formação, sobre a natureza das
quais já falámos suficientemente neste blogue.
Independentemente de outras
acusações susceptíveis de atingir o Benfica, Vieira é hoje acusado por uma
parte considerável dos sócios de ter usado o Benfica para defesa de interesses
pessoas (pagamento antecipado da dívida do clube para obtenção de uma
reestruturação de favor da sua próxima dívida); tentativa, gorada pela
intervenção da Comissão de Valores Mobiliários, de promover uma opa de acções
do Benfica SAD para favorecer os seus interesses privados (conflito de
interesses, segundo a CVM) e ainda de ter adulterado o resultado das eleições.
A juntar a isto uma péssima época
desportiva que corre o risco de ainda poder ficado pior do que aquilo que já era,
desde que não alcance a participação na edição da próxima época da Liga dos
Campeões. De facto, num tempo em que as participações na Liga dos Campeões
tendem a ser cada vez mais bem remuneradas, o Benfica corre o sério risco de
ficar de fora pelo segundo ano consecutivo. Poucos serão os que reconhecem ao
treinador competência para vencer as duas eliminatórias preliminares de acesso
à fase de grupos.
O regresso de Jorge Jesus, contestado
por muitos desde o início por razões que no futebol moderno já têm pouca razão
de ser, revelou-se, por outras razões, um profundo fracasso.
Jesus e o seu autodidatismo,
muito apreciado em países de fraca preparação académica, revelaram-se insuficientes,
mesmo muito insuficientes, para lidar com o saber de treinadores modernos e
muito mais novos. Jesus fracassou na escolha de jogadores, fracassou no pleno aproveitamento
dos jogadores que tem à sua disposição, fracassou na capacidade de “leitura” do
jogo (cada vez diz mais disparates sempre que procura interpretar o que se
passa em campo) e fracassou também na capacidade de mobilização dos jogadores com
vista ao seu empenhamento na busca de um objectivo vitorioso. Dele nada a
haverá a esperar, para melhor, na próxima época. Pelo contrário, com um plantel
previsivelmente mais reduzido em qualidade, só há a esperar o que a maioria dos
benfiquistas já antecipou: uma época igual ou pior à deste ano.
Perante este quadro, ao qual terá
de acrescentar-se o de um presidente pessoalmente acossado pela justiça e
contestado por um número cada vez mais significativo do universo benfiquista,
tudo o que possa levar à destituição de Vieira e à marcação de eleições
antecipadas seria o ideal. Não é de crer, todavia, que Vieira o faça de livre
vontade, mesmo que dentro do clube vá ficando cada vez mais só, como já está acontecendo,
com a recente demissão do Presidente da Assembleia Geral.
ESCOLHA DE TREINADOR OU MAIS QUE ISSO?
Depois de uma pequena novela em que os seus guionistas nunca
conseguiram impedir que os espectadores soubessem antecipadamente o seu fim, o
presidente do Porto e o treinador, Sérgio Conceição, assinaram ontem um contrato
que os ligará nos próximos três anos.
Durante o tempo em que novela durou e em que muito se ia
falando sobre as discussões ou divergências que estava havendo sobre o guião –
mais dinheiro, melhores jogadores, mais “mimo” – os adeptos que o FCP tem
espalhados pelaas televisões sob a designação de “jornalistas” iam veiculando a
tese de que o problema não era dinheiro (é algo que sempre fica bem dizer que o
dinheiro não é importante); melhores jogadores, certamente, mas qual é o
treinador que não quer melhores jogadores? ficando, por fim, como pressuposto
mais difícil de preencher aquele que lhe proporcionava mais afago e que mais
enaltecia a sua paixão pelo clube – mais “mimo” era o que ele queria.
O pérfido Vítor Pinto do Record/CMTV/Cofina um dos especialistas
a que o Porto mais recorre para a contra-informação ou para o enaltecimento das
“virtudes azul e brancas” foi-se encarregando de explicar que a grande mágoa de
Sérgio Conceição era a de sentir-se sozinho na defesa do FCP. Muito isolado e
muito atacado sem que um ombro amigo, uma voz carinhosa ou uma defesa musculada
viessem em seu auxílio. Esse era o seu grande problema e o que verdadeiramente
estava a emperrar a conclusão das negociações.
Por outras palavras, embora mantendo-nos fiéis à ideia, o que
foi dito por aquele porta-voz do FCP e aquilo com que podemos contar com esta
renovação é que Sérgio Conceição quer continuar a insultar e a pressionar os
árbitros, sempre que o Porto perca pontos, mas não quer ficar sozinho nesses
insultos nem nessas pressões, quer que outros o acompanhem nesses insultos e
nessas pressões e venham defendê-lo nas televisões. Isto levará a que a
direcção do Porto tenha de recrutar mais uns quantos porta-vozes para fazer
este trabalho e proíba aos que já lá estão toda e qualquer espécie de censura
ou crítica aos “exemplares” comportamentos do seu treinador.
Bem, tendo
por certo que na próxima época as pressões sobre os árbitros vão aumentar
atingindo a intensidade que for necessária, a nossa convicção é que Pinto da
Costa e o seu treinador estão também a tratar de problemas sucessórios - a
substituição do “chefe”. Não obstante os vários pretendentes ao lugar – Rui
Moreira, Vítor Baía, António Oliveira, André Villas Boas - não me admiraria
mesmo nada que Pinto da Costa aposte numa personalidade tipo Sérgio Conceição
para lhe suceder por ser de todos os que se perfilam aquele que mais se
assemelha ao mandatário vacante. Com
este treinador o ADN de ódio e de guerra contra todos os que não os apoiem
estará garantido por mais umas décadas.
UMA DECEPÇÃO
Terminou o Campeonato Nacional de
Futebol com o Sporting campeão como desde há muito era esperado. As maiores
surpresas da prova foram o Sporting e o Benfica. A primeira pela positiva, a
segunda pela negativa. O Porto esteve ao seu nível. Umas vezes dá para ganhar,
outras não. Desta vez não deu. Desde de comentadores a adeptos, passando pelos
jornalistas pseudo-independentes ninguém exigiu mais do Porto. O Porto teve determinação
e força de vontade de sobra, não perdeu nem empatou mais vezes do que noutras
ocasiões nem perdeu nenhum jogo com os seus grandes rivais, embora também só
tenha ganhado um. Se queixas há, do lado do Porto, elas são todas, como de
costume, contra os árbitros. Não houve censura do treinador, nem das suas
opções, e menos ainda dos jogadores.
O Sporting ultrapassou de muito
longe as mais optimistas expectativas. Fez um campeonato excepcional, foi a
equipa menos batida – apenas perdeu, já campeão, um jogo na penúltima jornada -,
foi também a equipa que mais pontos fez na ronda dos quatro primeiros (11 em
18), que mais elogios colheu durante toda a época e foi ainda a equipa onde
mais jovens talentos despontaram. Melhor era quase impossível.
Finalmente, o Benfica
unanimemente considerado a grande decepção da prova, tanto pelos resultados alcançados
como pelas exibições produzidas. Desde a direcção do clube, passando pela
generalidade dos adeptos, como também pelos adversários, até aos comentadores,
inclusive entre os afectos ao clube, a conclusão foi por todo o lado a mesma:
uma decepção, uma época falhada. O próprio treinador reconhece o desaire que a
época constitui, embora o impute à pandemia, justificação que está muito longe
de ser aceite tanto pelos adeptos como pelos comentadores afectos, desafectos e
inimigos do clube. Todavia, não obstante todas as críticas e a pertinência e
convicção com que são veiculadas por quem as faz, o Benfica foi o “campeão” da
segunda volta, não com os resultados que Jesus, sempre uma desgraça com
números, apregoa, mas com 13 vitórias, três empates e uma derrota! Ou seja, melhor
do que todos os outros. Compreende-se, não obstante o peso destes números, que
as exigências do Benfica, dos seus adeptos, dos seus comentadores e até dos
seus adversários ou inimigos sejam inquestionavelmente superiores às que são apresentadas
a qualquer outra equipa. Ao Benfica não basta jogar bem, exige-se que jogue
muito bem; ao Benfica não basta que ganhe, exige-se-lhe que ganhe por vários;
ao Benfica não basta a simples vitória, exige-se-lhe que ela seja concludente.
Enfim, ao Benfica exige-se o que verdadeiramente só é exigido às muito grandes
equipas. Esse é um tributo que o Benfica paga à sua grandeza.
Um outro aspecto que tem sido
negligenciado no comentário desportivo é o da relação entre o treinador e o
plantel. Não nos referimos ao relacionamento social entre ambas as partes, mas
ao relacionamento técnico-táctico. O Benfica tem um excelente plantel. Jogue
quem jogar, há sempre um banco de luxo. Incomparavelmente melhor do que os seus
mais directos competidores. Mas não tem o plantel que o treinador gostaria que
tivesse. E a partir daqui é que a coisa se complica. Embora o treinador não
possa nem deva ficar completamente à margem da formação do plantel, também não
deverá ser num clube com a dimensão do Benfica o treinador a fazer o plantel. A
diferença entre um bom treinador e um treinador comum é esta. Um bom treinador
é o que sabe tirar partido a cem por cento do plantel que tem à sua disposição. É
um treinador que tem a capacidade de adaptar o futebol da equipa às
potencialidades do conjunto. Se, pelo contrário, por mais excelente que seja o
plantel, o treinador só é capaz de pôr (ou tentar pôr) a equipa a jogar com
jogadores com outras características e se se revela incapaz de tirar vantagem do
excelente plantel que tem à sua disposição, então o problema não é da direcção,
nem é dos jogadores, mas do treinador. Terá de ser nesta perspectiva que terão de trabalhar os treinadores do Benfica.
NO "CIRCO" DE MOREIRA DE CÓNEGOS MONTADO PELO FCP
Para falarmos sobre o que se
passou em Moreira de Cónegos comecemos pelo que se passou dentro do campo,
tanto durante o jogo como depois deste terminado.
Na última década o Porto tem tido muitas
dificuldades em Moreira de Cónegos. Ou perde ou empata. Só ganhou uma vez. Como
toda a gente sabe, o Porto não aceita a arbitragem de nenhum árbitro cujo
desfecho termine num empate ou numa derrota. Ressuscitando velhos demónios, o
Porto volta a entender, depois de um jejum de vários anos, que os árbitros têm
a obrigação de lhes assegurar a vitória nos jogos em que o arbitram. Se a
vitória não acontece, o árbitro vai sofrer as consequências. No passado as
consequências eram conhecidas, além das ameaças e até das agressões de que
nunca se descobria o autor, o Porto boicotava completamente a carreira desse
árbitro. Não o deixava arbitrar a maior parte das vezes e se continuasse a dar provas
de que não estava regenerado era rebaixado para o escalão inferior.
Hoje, as coisas são diferentes e
o Porto tem de levar com os árbitros de que gosta e de que não gosta. Os que
não gosta passam a estar sujeitos ao repetido e reiterado enxovalho no fim de
cada jogo na presença seja de quem for, sempre que o resultado não for uma
vitória. Chamam-lhes ladrões, insultam-nos com todos os nomes que lhes ocorre
de ameaçam-nos quanto mais não seja por interpostas pessoas, vendo-se os árbitros na necessidade de circular
nos pais com a protecção de um guarda-costas, normalmente um agente policial.
Na passada segunda-feira,
antevendo as dificuldades do jogo, eles montaram uma estratégia que tinha em
vista obrigar o árbitro, mediante pressões sucessivas e sempre muito
espectaculares, a marcar uma ou várias grandes penalidades que lhes assegurasse
a vitória no jogo.
Ao rever o jogo com cautela e
inteligência, percebe-se perfeitamente qual foi a estratégia: como o campo do
Moreirense é de dimensões reduzidas, o treinador do Porto durante toda a semana
treinou os seus jogadores para sucessivas incursões individuais na área do
Moreirense com vista a provocar contactos dos quais haveriam de sair, com simulações
mais ou menos credíveis, as desejadas grandes penalidades. No fim de cada uma
destas jogada, se o árbitro não assinalasse o desejado penalty, montava-se o
habitual coro de protestos em consequência dos quais mais tarde ou mais cedo
haveria de resultar o inevitável penalty.
É difícil encontrar no campeonato
português ou em qualquer outro um jogo com tantas jogadas pretensamente
polémicas dentro da área, todas elas construídas com o objectivo de levar o
árbitro à marcação dos famigerados penalties. À medida que o tempo passava e a
vantagem do Moreirense se consolidava, o nervosismo aumentava e as simulações eram
cada vez mais toscas e desesperadas.
Sem as enumerar todas, podemos começar
por uma palhaçada de Pepe que tenta desesperadamente um contacto com o jogador
do Moreirense, metendo-lhe a perna à frente para o impedir de despachar a bola e
logo que sente de raspão um ínfimo toque na meia, deita-se desengonçadamente para
o chão a berrar que nem uma vitela recém-nascida. Este é o primeiro penalty que
eles reclamam.
Depois é o Martinez, que até não
tinha esta prática, tanto em Espanha como no Famalicão, mas que rapidamente a
adquiriu no Porto para poder ombrear com Taremi na disputa de um lugar na
frente de ataque, que consegue, finalmente, por ingenuidade do jogador do
Moreirense o desejado contacto, que ele agravou, com receio que não fosse
marcado, arrastando a perna direita para a direita da sua marcha para ter a
certeza que dessa vez o jogador do Moreirense haveria de tropeçar nela. Hugo
Miguel assinalou penalty que deu golo e o empate.
Logo a seguir, o miúdo Porto,
muito franzino, mas já com uma considerável dose de manha no corpo, não aguentou
o contacto com um jogador fisicamente muito mais forte e projecta-se para o ar
chiar que nem uma gata. Hugo Miguel, como é óbvio, mandou seguir. E este é
outro penalty que eles reclamam. Na sequência desta jogada o superbatoteiro
Taremi faz uma simulação tosca e levou o cartão amarelo. Desta vez não tiveram lata para pedir penalty
Ainda houve mais uma cena deste
teatro feito pelo Porto que foi o derrube de Luís Diaz fora da área, mas perto
da linha. Mais uma vez os restantes jogadores do Porto queriam penálty, quando
é óbvio para toda e qualquer pessoa que veja as imagens que o pé que é atingido
e do qual resulta o derrube do jogador é o pé direito que está fora da área. E
este era mais um penalty que eles queriam.
O jogo terminou a seguir, mas
depois seguiu-se o que já é habitual nestas circunstâncias com o Porto. Alguns
jogadores rodearam a equipa de arbitragem a pedir satisfações e a protestar, a
que se juntaram logo a seguir os arruaceiros vindos do banco comandados pelo
treinador, que insultou o árbitro com ar agressivo, tendo desta vez sido
acompanhado pelo assessor de imprensa que, de cabeça completamente perdida, deixou a impressão de queria agredir o árbitro e só não o terá feito porque o director
de futebol do Porto, com muita dificuldade, o impediu de prosseguir o seu
propósito agressivo.
Hugo Miguel em condições dificílimas
fez um excelente trabalho, sabendo resistir à batota das simulações
ARSENAL 3 – BENFICA 2
Que o Benfica iria ter vida difícil na segunda mão dos dezasseis
avos de final da Liga Europa, já toda a gente sabia, dada a fraca qualidade do
futebol do Benfica e a incapacidade da equipa em criar situações de golo ou em
concretizá-las nas poucas vezes em que as cria. O que se não sabia era que o
treinador iria ter uma tão grande responsabilidade nessa derrota com as
substituições que fez por volta dos 60 minutos de jogo.
Para que se perceba: o Benfica voltou a apresentar-se no jogo
da segunda volta (disputado em Atenas por causa da COVID 19) com uma defesa de
três centrais (Lucas Veríssimo, Otamendi e Vertonghen), mais dois laterais (Diogo
Gonçalves ed Grimaldo). Uma linha média de três elementos (Weigl, Taarabt e
Pizzi), uma linha avançada de dois: (Seferovic e Rafa).
Esta concepção táctica dos três centrais, mais dois laterais,
que o Benfica experimentou, com outros jogadores, numa partida para a Taça de
Portugal, salvo erro contra o Estoril, e depois repetiu parcialmente com os
mesmos jogadores contra o Arsenal no jogo da primeira mão, foi, em nosso
entender, muito mais ditada pela necessidade dc “acantonar” Lucas Veríssimo,
que Jesus tanto se esforçou por contratar, do que pelas exigências ditadas pelo Arsenal.
Logo aqui começam as “invenções” do treinador, pois sendo este um sistema
exigente do ponto de vista do posicionamento defensivo só por muita sorte é que
não iriam no decorrer do jogo aparecer situações para as quais a defesa no seu
conjunto de cinco não estava suficientemente rotinada para responder com
eficácia. Depois, sendo um sistema que exige muito dos laterais, já que terá de
ser por via deles que se poderá dar
largura e profundidade ao jogo atacante, só pode ser experimentada e aplicada
com sucesso quando se dispõe de laterias rápidos e com grande capacidade de
recuperação nas transições defensivas. Por seu turno, competirá aos médios,
pelo menos a dois deles, fechar o espaço que os laterais deixam a descoberto quando
atacam e não recuperam defensivamente a tempo. Acresce a isto, para que a equipa
tenha bola na frente e gente na área, que além dos avançados haja nas
jogadas de ataque a presença do médio mais ofensivo e de um dos laterais.
Como o sistema é complexo, pressupõe muito trabalho, rotina
ganha em competição, não seria de estranhar, como não foi, que a defesa, e por reflexo toda a equipa, para não se desposicionar, jogasse com lentidão,
muita lateralização e passes para trás, enquanto o Arsenal ia tentando furar as
linhas sempre que não caía na ratoeira do fora de jogo.
Esta foi a escolha de Jesus que somente não correu mal no
primeiro tempo, apesar de o Benfica ter sofrido um golo, porque Diogo Gonçalves
marcou de livre directo à entrada da área um excelente golo. Este golo, muito
perto do intervalo, animou a equipa que se desprendeu das correias tácticas com que o treinador a agrilhoou a ponto de, nos pucos minutos que lhe faltavam para aa pausa ter
estado à beira de marcar o segundo.
Veio a segunda parte e o jogo continuou frouxo nos quinze
minutos iniciais, apesar de o Arsenal já estar a dar mostras de que iria arriscar
o necessário para mudar o resultado, sem contudo ter criado nenhuma situação
para o conseguir.
E foi então, aos 60m minutos, que Jesus cometeu a asneira da
noite, previsível para qualquer pessoa que, com dois dedos de testa, venha
acompanhando a carreira do Benfica e as capacidades dos seus jogadores. De uma
assentada Jesus substituiu Seferovic, Taarabt e Pizzi por Darwin, Gabriel e Cebolinha.
Se a substituição de Seferovic por Darwin ainda se pode compreender, pelas
alterações que o modo de jogar de Darwin poderia trazer à frente de ataque do
Benfica, apesar do suíço estar a cumprir dentro daquilo que são as suas
capacidades, já as outras duas se anteviam verdadeiramente suicidárias.
Por sorte, antes que qualquer daqueles jogadores tivesse tido
tempo de sequer tocar na bola, houve um canto contra o Benfica que permitiu a Helton
Leite lançar rapidamente a bola para frente, antes de a equipa do Arsenal tivesse
tido tempo de se reposicionar, bola essa defeituosamente atrasada por um defesa
do Arsenal que permitiu a Rafa num dos seus extraordinários sprints ser mais
rápido que o guarda-redes adversário e entrar com a bola pela baliza dentro.
Estava marcado o segundo golo e a eliminatória na mão com
grande probabilidade de o score ainda poder ser mais dilatado, se o Benfica
tivesse em campo jogadores suficientemente rápidos e tacticamente evoluídos capazes
de proporcionar aos avançados bolas em profundidade. Pouco depois do golo,
Darwin ainda se isolou, flectiu para a esquerda, mas quando chegou perto da
baliza começou a não saber o que fazer com a bola, enrolou-se nela e perdeu-a.
Numa outra ocasião, Gabriel beneficiando de umas dessas transições ofensivas,
tinha tudo para entregar a bola ao colega isolado com grande probabilidade de
marcar, mas optou por entregá-la inexplicavelmente ao guarda-redes adversário.
O Arsenal cada vez mais ansioso continuava a atacar pela
esquerda e pela direita. Cebolinha completamente perdido em campo, não fazendo
a menor ideia de como se defende, deixou de ser o obstáculo que o Benfica precisava
para anular as jogadas do lado direito da defesa do Benfica e também à frente de cada
vez que pegou na bola nada fez, salvo andar ou passar para trás. Um completo desastre,
como, insisto, qualquer pessoa que perceba um pouquinho de futebol estaria em
condições de antecipar. Por outro lado, Gabriel, errático nas marcações, como
sempre, e sem qualquer hipótese de fazer passes longos, mesmo mal feitos, foi
juntamente com Cebolinha mais um homem a menos no meio capo, recaindo sobre Weigl
o trabalho que seria de um ou de outro, obrigando-o a desposicionar-se, deixando
uma aberta no lugar que deveria ocupar. Veríssimo, pelo seu lado, ia dando
sinais de intranquilidade. E assim, numa jogada pelo lado direito do Benfica, em
que Cebolinha se portou nas duas vezes em que tentou enfrentar-se com o
atacante arsenalista como uma verdadeira barata tonta, surgiu num remate cruzado
indefensável o segundo golo do Arsenal.
Para cúmulo das asneiras, Jesus a sete minutos do fim tirou
Grimaldo e meteu Nuno Tavares. E então numa bola que, começando por circular pela lado direito
da defesa do Benfica sem que ninguém a interceptasse, chegou ao lado
esquerdo com Gabriel como espectador e Nuno Tavares, distante do jogador que a recebeu, permitiu que este cruzasse à vontade para o poste oposto onde Aubameyang se
antecipou a Lucas Veríssimo e fez o terceiro.
Depois dos 90 ainda entrou, para jogar pouco mais que dois
minutos, Waldschmit num sacrifício gratuito, inútil e desnecessário.
E assim terminou uma jornada europeia em que Jorge Jesus mais
uma vez deixou claro, sem qualquer dúvida, não somente a sua incapacidade para “ler”
o jogo, como para fazer substituições.
Um erro imperdoável, tanto mais quanto mais previsível era o que poderia
acontecer.
Jorge Jesus pode não sair pelo seu pé, mas se esse for o
caso, como infelizmente parece, o Benfica vai ter que friamente ponderar o que
lhe ficará mais caro: se manter Jorge Jesus em posto; ou se despedi-lo imediatamente.
Se tivesse vergonha e dignidade, Jorge Jesus faria o que qualquer pessoa
decente faz quando falha tão escandalosamente num lugar de alta
responsabilidade. Ia-se embora, com ou sem pedido de desculpas.
Se eu fosse treinador do Benfica em Junho e soubesse que estavam para ser comprados Cebolinha, Gilberto, Darwin. Lucas Veríssimo e Pedrinho, comunicaria ao presidente a lista dos jogadores com que desejava ficar:
Vlachodimus, André Almeida, Ruben Dias, Grimaldo, Nuno
Tavares, Weigl, Florentino, Samaris, Gedson, Pizzi, Taarabt, Rafa, Vinicius,
Cervi e Gonçalo Ramos.
Pedia o regresso de
Diogo Gonçalves.
Vendia, emprestava ou dava os restantes, sem custos para o
Benfica
Aceitava as compras de Helton Leite, Vertonghen e Waldschmit
E comprava na Liga Portuguesa sete ou oito dos melhores
jogadores que nela jogam – 2 pontas de lança, um defesa esquerdo, um médio
defensivo, um médio atacante, dois centrais e um terceiro guarda-redes cujos
nomes não vou aqui indicar.
Eventuais dificuldades temporárias seriam supridas pela
equipa B ou pela sub 23.
O Benfica teria poupado cerca de 80 milhões de euros,
gastaria nas restantes compras, além das três acima citadas, cerca de 15
milhões de euros. E se Ruben Dias tivesse que sair, noutras condições, embora
para o mesmo destino, aceitaria ficar com Otamendi – ou seja Otamendi comprado mais
barato e Ruben vendido mais caro.
Com esta equipa o Benfica seria campeão nas calmas e teria
entrado na Liga dos campeões, continuaria superavitário e não teria hipotecado
financeiramente o futuro e muito menos desportivamente.
Com Jorge Jesus foi, infelizmente, a desgraça: desportiva e
financeira, não apenas porque não ganhando desportivamente não se tem saúde
financeira, mas também porque as compras por ele indicadas são uma tragédia,
desportiva e financeiramente. Ele é tão mau, tão mau a escolher jogadores que
nem se percebe como é que uma pessoa que anda nisto há cerca de 30 anos comete
erros tão graves e irremediáveis.
O QUE MUDAR?
A maior parte das análises que estão sendo feitas sobre a situação
do Benfica, apontam para respostas difíceis de pôr em prática.
Não é fácil substituir o presidente se ele não tomar a
iniciativa de se demitir, dando lugar à marcação de eleições.
Também não é fácil substituir o treinador se ele não aceitar
um acordo de rescisão amigável, sem custos para cada uma das partes.
Mas também é verdade que mantendo estes dois intervenientes
se torna difícil alterar o rumo das coisas. Se o presidente se não demitir nem
for demitido, ele deve tudo fazer par rescindir com Jesus nas condições acima
indicadas.
De facto, o Benfica é uma equipa sem alma, triste, que parece
exclusivamente manietada pela ideia de não perder a bola. Isso faz com que os
jogadores com menos técnica baixem a intensidade do jogo para não falharem o
passe, que quase todos privilegiem o passe para trás ou para o lado, sem risco, mas também sem progressão, e mesmo quando conseguem chegar às imediações da área adversária e não encontram uma linha de passe segura, prefiram, por não haver quem remate de
meia distância, em passes sucessivos atrasar novamente o jogo recuando até às
imediações da sua área se não mesmo do guarda-redes, mesmo quando a equipa está empatada ou
a perder.
Isto não é culpa dos jogadores. Alguém os deixa jogar assim.
As agora chamadas transições ofensivas, os contra-ataques, em que o Benfica era
fortíssimo, desapareceram quase completamente da equipa, seja por a velocidade
não ser a desejada, seja por o jogador que conduz a bola não fazer a mínima
ideia de como fazer o último passe. Este mal não é apenas aplicável às
transições, ele está também presente sempre que se cria uma oportunidade. Normalmente, perde-se por o último passe ser quase sempre defeituoso. E nas
raríssimas vezes em que o passe é bem feito, o jogador que o recebe, na esmagadora maioria das vezes, não acerta
na baliza. Por outro lado, mesmo quando o avançado está isolado e tem a baliza obliquamente à sua esquerda ou à sua direita, o remate cruzado vai quase sempre para fora e outros vão directos
ao guarda-redes.
As bolas paradas são hoje um verdadeiro quebra-cabeças
para a equipa. Há muitos e muitos jogos que o Benfica não consegue marcar um
golo de livre (talvez tenha marcado um, no princípio do campeonato), indo a
maior parte deles para fora ou contra a barreira. Nos cantos, a mesma situação.
Com excepção de Waldschmit não há quem saiba marcar cantos. O Benfica pode ter
uma dúzia ou mais de cantos, por jogo, que daí não virá nenhum prejuízo para o
adversário. A bola vai sempre para os adversários ou para onde nunca está ninguém.
No sentido oposto, o Benfica sofre sempre muito nos contra-ataques
adversários, porque mesmo quando tem vários homens na defesa eles limitam-se a
descer paralelamente à frente d portador da bola, sem tentarem interceptar o lance, permitindo àquele
meter a bola onde deseja.
Tudo isto se treina e se corrige, mas no Benfica parece que
não há quem o faça. A equipa está apática, sem garra, sem crença, comete sucessivamente os nmesmos erros, tem as mesmas falhas, e joga sem
convicção. Dá até a impressão, desde o princípio, que está cansada do treinador. Um
cansaço que até parece ter começado antes dele chegar.
Substituir Jesus é um imperativo, apesar de já pouco se poder fazer. O segundo lugar começa a ficar longe, a Liga Europa tem tudo para correr mal, e a Taça de Portugal, se o Benfica chegar à final, vai depender muito de como até lá as coisas tiverem corrido. Mais difícil é escolher quem pode ser chamado para fazer o resto da época. O Benfica, nos tempos que correm, não aguenta outra asneira. Quem chegar vai ter mudar muita coisa e vai ter de experimentar outros jogadores. Deixando de fora quem nestes seis meses não provou e dar uma hipótese a quem praticamente as não teve.
BENFICA – UMA EQUIPA TRISTE
Depois da grave crise do fim do século passado e da primeira década deste, em que durante 15 épocas apenas se ganhou um campeonato, o Benfica, depois do seu ressurgimento em 2009/2010 até hoje, nos jogos contra o Futebol Clube do Porto na Liga, Taça de Portugal, Taça da Liga e Supertaça, ganhou 8 (embora num deles a vitória valesse de pouco por ter sido eliminado), perdeu 17 e empatou 8. Ou seja, mesmo que tivesse ganho os que empatou as suas vitórias continuariam a ser inferiores às do FCP. Isto para dizer que o resultado de hoje, visto à luz das últimas 10 épocas, não tem nada de anormal. O que parece difícil de explicar é a falta de alegria com que a equipa joga. O jogo para quem o está a observar de fora apresenta-se com laivos de sofrimento para os jogadores, para o treinador e demais elementos do banco.
Provavelmente todos percebem que
a equipa joga mal, todos igualmente parecem ter interiorizado não acreditar que possa melhorar e todos parecem admitir que a equipa está à mercê de
qualquer adversário bem dirigido mesmo quando os oponentes, individualmente
considerados, estejam longe de representar um valor não substimável. E é essa
convicção que a todos perpassa desde os adeptos, aos jogadores, à equipa técnica
e aos dirigentes que vai tornar muito difícil a recuperação anímica do Benfica por
haver uma profunda decepção enraizada em processos que, jogo após jogo, parecem não resultar.
E sem deixar de aprofundar este
assunto, a que voltaremos mais à frente, no espírito de todos paira o enorme
investimento realizado não apenas em termos absolutos, mas principalmente
quando comparado com o dos três mais próximos rivais, dois deles em grandes
dificuldades financeiras, os quais, com a prata da casa ou com investimentos de
baixo custo em jogadores de equipas secundárias da nossa liga, apresentam equipas
muito mais competitivas e mais atractivas que a do Benfica. E não vai ser a
contratação de mais um ou dois jogadores ou a venda de dois ou três que vai
resolver o problema, venha quem vier e saia quem sair. O problema é mais
profundo e não pode nem deve por mais tempo ser escamoteado pela equipa
dirigente.
O futebol do Benfica tem de mudar
de estilo, tem de se adaptar às características dos jogadores que compõem o
plantel e tem de permitir aos jogadores que joguem sem medo, que arrisquem
mais. Se todos o fizeram tornar-se-ão mais solidários e os riscos serão
menores.
Ora, a questão que se põe é esta:
estará o treinador e a sua equipa técnica à altura deste desafio?
E quanto ao plantel, o que nos disse o jogo de
hoje? Acho que o jogo confirmou que Vlachodimos, não sendo um excepcional
guarda-redes, é mais do que suficiente para guardar as redes do Benfica; que
para encontrar um lateral como Gabriel não era necessário ter ido aos Brasil; que os
centrais, tanto os que jogaram (e Otamendi até terá feito hoje o seu melhor
jogo pelo Benfica), como os outros são suficientes para jogar no campeonato
português e que Grimaldo tem qualidades excepcionais como atacante, tendo
necessariamente de ser compensado pelo central esquerdo ou por um médio sempre
que sobe. Na linha média, a questão é mais complicada: insistir em Taarabt é
insistir em inúmeras bolas perdidas, frequentemente desequilibradoras da equipa;
Gabriel é mais seguro, embora os seus passes longos falhem muitas vezes o alvo,
todavia com menos perigo que as perdas antes referidas; Weigl tem tido ma adaptação difícil, mas se tivesse
uma boa companhia poderia vir a ser um jogador de eleição, Nas alas, Everton,
como já disse noutro post, dificilmente irá além daquilo que tem feito, mesmo
assim é inacreditável que o treinador não o ponha também a jogar do oposto no qual, pelo menos, poderia tirar partido dos seus cruzamentos; Rafa dá uma certa emoção à equipa, mas é uma
emoção estéril porque na maior arte das vezes os seus desequilíbrios não produzem
qualquer efeito útil e às vezes, quando produzem, como aconteceu hoje, eles acabam por se reflectir na parte
oposta do campo. Quanto aos avançados, a questão é muito simples: têm de marcar
golos e para os marcar têm de rematar à baliza, de frente de lado e até de costas e não assemelharem-se a um mestre
de cerimónias quando têm a baliza pela frente.
Em conclusão: as perspectivas não são boas…
O REGRESSO DE JORGE JESUS E O ACTUAL BENFICA
PODE O BENFICA CONTINUAR A JOGAR NO MESMO SISTEMA?
Jorge Jesus regressou ao Benfica cinco épocas depois de o ter
deixado, aureolado com as espectaculares vitórias alcançadas no Flamengo, mas
debaixo de uma chuva de críticas que, todavia, não foram suficientes para pôr
em causa a continuidade de Luís Filipe Vieira como presidente do clube,
reconduzido por mais quatro anos em eleições recentemente realizadas.
A maior parte das críticas ao regresso de Jorge Jesus nada
tinham a ver com a sua competência técnico-táctica como treinador de futebol,
mas com as questiúnculas havidas durante os primeiros tempos do sua entrada no
Sporting que levaram muitos sócios e adeptos a sentirem-se ofendidos com as
palavras de Jorge Jesus. Essas questões, no que a mim me respeita, não me
afectam nada na apreciação do trabalho do treinador nem interferem com a
opinião que posso ter sobre o seu regresso ao Benfica.
Somente quem tem fraca memória e não sabe interpretar os
factos não perceberá que não foi Jorge Jesus que quis sair do Benfica, mas o
Benfica que não quis continuar com Jorge Jesus. O treinador tendo percebido
antes do final da época que não era o preferido para continuar, tratou da vida
– de uma vida diferente da que o Benfica estava disposto a arranjar-lhe (um
contrato no Qatar) – e firmou um contrato com o Sporting que todos, sem
excepção, consideravam não ter dinheiro para contratar um treinador tão caro. Vieira que não queria continuar com Jesus, mas também não queria que ele fosse
para o Porto nem para o Sporting, quando percebeu que estava iminente a sua
contratação pelo Sporting tentou evitar, sem êxito, o seu ingresso no clube de
Alvalade.
A partir desse momento, convinha ao presidente do Benfica dar
a entender que foi Jesus que “fugiu” do Benfica, para assim poder amortecer o
coro de críticas da maior parte dos adeptos, que não admitiam a sua ida para o
outro lado da Segunda Circular e ao treinador agradava-lhe a ideia posta a
circular de que foi ele que resolveu dar um novo e diferente rumo à sua vida
desportiva.
Consumado o facto, Vieira estava empenhado em demonstrar que
ganhava com qualquer um, dada a excelência das condições que o Benfica e a sua
estrutura do futebol proporcionavam a quem lá estivesse como treinador e Jorge
Jesus pretendia demonstrar exactamente o contrário: que quem ganhava era ele, no
Benfica ou no Sporting.
Nesta luta de galos devidamente amplificada e travada com
alguma virulência pelos acólitos de ambas as partes, quem ganhou foi Vieira e
com ele o Benfica, que poderia ter ganhado muito mais se o seu presidente não
tivesse tido a soberba arrogância de supor que dali para a frente seriam “favas contadas”, qualquer que fosse o plantel à disposição do treinador. Do
ponto de vista de Jorge Jesus a derrota foi total. Após o primeiro ano de contrato,
a sua passagem pelo Sporting foi penosa e humilhante, com episódios nunca
vistos no futebol português, tendo acabado por se refugiar no lugar que
recusara ocupar quando o Benfica lho ofereceu: treinador nas “Arábias”, lugar
donde também teve que partir antes do tempo por razões ainda hoje não completamente esclarecidas.
Frustrada a hipótese do seu regresso ao Benfica, pelo
excepcional desempenho da equipa de Bruno Lage quando tudo já parecia perdido, depois de esgotada a solução
Rui Vitória, Jesus viu-se forçado a fazer
novamente o que não gostava: emigrar para um lugar longínquo do futebol
europeu. Só que desta vez, esse lugar, apesar de longínquo, é um lugar a que
está permanentemente no foco do futebol mundial, não só porque tem milhares de
jogadores espalhados pelos quatro cantos do mundo, desde as melhores equipas até
às mais modestas, mas também porque tem uma selecção que de quatro em quatro
anos luta sempre para vencer o título mundial, já alcançado por seis vezes.
Contratado pelo clube mais popular do Brasil – o Flamengo –
Jesus fez história, ganhando tudo o que havia para ganhar com excepção da Copa
do Brasil e do Campeonato Mundial de Clubes, em que foi vice-campeão. Mas não
só ganhou tudo como revolucionou o futebol brasileiro e pôs a nu a escassa
competência técnica dos seus treinadores.
E é na sequência
destas vitórias e de nova crise do Benfica que, depois de liderar campeonato
com sete pontos de vantagem e apenas três pontos cedidos à 19.ª jornada, perdeu
nas quinze seguintes 22 pontos!
Contratado Jorge Jesus sem surpresa e sem oposição explícita, tal fora o descalabro da equipa na época anterior, a partir da
20.ª jornada, com a promessa de ter um plantel “europeu”, foram chegando ao
Benfica: Helton Leite (guarda-redes brasileiro vindo do Boavista, não escolhido
por Jesus), Gilberto (brasileiro, defesa direito, vindo do Fluminense, indicado
por Jesus), Vertonghen (belga, ex-Totenham), Diogo Gonçalves (regressado do
Famalicão), Ferreyra (regressado do Espanyol), Darwin Nuñez (uruguaio, vindo do
Almeria), Waldschmit (alemão, vindo do Freiburg), Everton “Cebolinha”
(brasileiro, vindo do Grémio de Porto Alegre, indicado por Jesus), Pedrinho
(brasileiro, vindo do Corinthians). Depois de iniciada a época saiu Ruben Dias
e entrou Otamendi (argentino, vindo do Manchester City) e também Todibo,
(francês, defesa central, vindo do Barcelona com opção de compra).
Da época transacta transitaram: Vlachodimus, Sevilar,
Grimaldo, André Almeida, Ferro, Jardel, Nuno Tavares, Samaris, Taarabt, Cervi,
Gabriel, Weigl, Pizzi, Chiquinho, Seferovic, Rafa e Gonçalo Ramos (que subiu
dos escalões inferiores).
A estreia de Jorge Jesus não poderia ter corrido pior: a
terceira eliminatória da Liga dos Campeões, jogada numa única mão por causa da
“pandemia”, contra os gregos do PAOK, treinados por Abel Ferreira, traduziu-se
numa derrota por 2-1, que afastou o Benfica da competição milionária mais
prestigiada do futebol mundial, sem possibilidade de sequer jogar o play-off,
logo num ano em que as equipas apuradas não representam o que de melhor há no
futebol europeu.
Esta derrota teve consequências muito negativas na época em
curso, não apenas porque retirou o Benfica do acesso a receitas insubstituíveis
e da possibilidade de com elas melhorar o plantel em zonas nevrálgicas, como,
pelo contrário, obrigou o clube o clube a pôr no mercado o seu jogador mais valioso
- Ruben Dias – criando um buraco no eixo defensivo dificilmente colmatável. A
solução de recurso encontrada foi a de receber como “contrapeso” desta
transferência um jogador para o mesmo lugar de que o City desejava ver-se livre.
Iniciadas as competições nacionais e internacionais alguns
dias depois da derrota de Salónica, o Benfica somou, consecutivamente, cinco
vitórias internas e duas na Liga Europa. Durante este ciclo de vitórias
ocorreram as eleições, as mais concorridas de toda a era Vieira e de sempre, que reelegeram
por margem mais competitiva (cerca de um terço, dois terços) o actual
presidente que beneficiou do bom momento que a equipa atravessava, não obstante
a “inapagável mancha” resultante da derrota na Grécia.
Jogando no seu sistema de jogo habitual – 4-4-2; 4-2-4 -, o
Benfica, embora tendo ganho folgadamente em Famalicão (5-1), em Vila do Conde
(3-0), jogado mais ou menos normalmente contra o Moreirense (2-0), o Belenenses
(2-0) e o S. de Liège (3-0), experimentou dificuldades inesperadas contra o
Farense (3-2) e contra o Poznan (4-2) na Polónia que deixavam antever uma fraca
capacidade defensiva no seu todo, embora mais notória no sector defensivo,
individualmente muito fragilizado pela lesão de André Almeida em Vila do Conde,
pela ausência de Ruben Dias depois da segunda jornada e também pela lesão,
muito menos grave, mas impeditiva, de Grimaldo.
A partir daí foi o descalabro, a equipa entrou em queda livre sofreu
9 golos em três jogos consecutivos, perdeu 2 jogos e empatou um – Boavista, no
Bessa (0-3), Rangers, na Luz (3-3) e Braga, também na Luz (2-3).
Mantendo-se fiel ao seu habitual sistema de jogo, Jorge Jesus
ainda não compreendeu que não tem plantel para continuar do mesmo modo. Se este
sistema já tinha sido, nos jogos com as equipas grandes, o grande calcanhar de
Aquiles do Benfica nas primeiras seis épocas de Jesus, principalmente nos anos
em que não reunia um plantel de luxo, esta época com um plantel apenas valioso
no ataque, com uma linha defensiva individualmente fraca e lenta, uma linha
média que verdadeiramente não tem um seis nem um oito, capazes de jogar box to
box, embora um mais perto da cabeça da área a maior parte do tempo, com alas
com pouca apetência defensiva e muitas vezes sem capacidade ofensiva para
resolverem os jogos, o Benfica tornou-se presa fácil das bem orientadas equipas
adversárias, que, aproveitando as quase nulas capacidades do Benfica nas
transições defensivas, penetram na área e entre as linhas do Benfica como faca
em manteiga quente.
Como não vai ser possível reformular todo o plantel, nem
contratar em Janeiro, no mínimo, um central competente e dois médios que façam
a diferença, o Benfica, se não quer que lhe aconteça o mesmo que aconteceu o
ano passado a partir da 20.ª jornada, vai ter de mudar de sistema de jogo muito
rapidamente, tornando-se mais forte no meio campo e protegendo melhor os
corredores laterais.
As contratações dos vários jogadores que chegaram esta época só
não são um “flop” completo, porque há jogadores que continuam a mostrar o seu
real valor, não obstante as fragilidades colectivas da equipa, como é o caso de
Darwin Nuñez e Waldschmit, dois excelentes jogadores em qualquer parte do
mundo. Pedrinho, a jogar sempre fora do seu lugar natural, tem potencialidades para
crescer se lhe for dada mais liberdade e jogar preferencialmente nas zonas
centrais do ataque. Vertonghen também tem provado, não sendo de sua
responsabilidade os desacertos defensivos da equipa. Enquanto jogou ao lado de
Ruben Dias jogou bem. Já os demais deixam muito a desejar e nem sequer é
expectável, do meu ponto de vista, que venham a melhorar. Gilberto é o que é. Aquilo e nada mais.
Distante de poder substituir um jogador como André Almeida. Otamendi, que nunca
apreciámos, é um completo desastre. Foi um desastre contra o Farense, contra o
Boavista, contra o Rangers foi logo expulso aos 19 minutos numa jogada que
deixou a nu as suas limitações como central e contra o Braga teve uma exibição
inqualificável, tendo estado nos três golos dos bracarenses em jogadas
inadmissíveis mesmo na divisão inferior. Everton (Cebolinha) que chegou
incensado em grande craque, está muito longe de confirmar os atributos que o
recomendavam. E como de jogo para jogo vai jogando cada vez menos, diz-nos a
experiência que num jogador com aquelas características físicas e anímicas (nos
últimos jogos já entrou derrotado em campo e sem alegria) não é de esperar uma
reviravolta que o catapulte para um nível compatível com o seu custo (talvez
não fosse má ideia, se continuar assim até Janeiro, começar a pensar em negociá-lo
no Brasil como moeda de troca por jogadores brasileiros que dêem mais
garantias). Dentre os que continuaram apenas Seferovic tem estado ao seu melhor
nível sempre que é chamado. Os restantes têm as virtudes e as limitações que se
conhecem- Pizzi não defende, nem sabe defender; Taarabt também não e quando tenta faz
falta, quebra por vezes o ritmo de jogo, ficando com a bola tempo de mais, mas,
de tempos a tempos, lá vai fazendo um passe fenomenal. É pouco. Samaris e Weigl
defendem melhor do que constroem e não dão progressão ao jogo. Gabriel faz um
grande esforço para acertar os passes longos, tenta defender, mas igualmente se
nota que é um pouco um peixe fora de água. Gosta de construir, pode desarmar
quando passam por ele, mas deixa muito a desejar em matéria de ocupação de
espaços. Cervi e Chiquinho pouco jogam e talvez merecessem mais, principalmente
Cervi. Nuno Tavares começou bem, mas tem vindo a descer em ambos os aspectos:
tanto a atacar como a defender. Se não tiver auxílio por parte de quem esteja daquele lado do terreno será um problema
para a equipa. Gonçalo Ramos ainda não teve possibilidade de se mostrar e seria
lamentável pô-lo a jogar quando o resultado já não é recuperável, como
aconteceu contra o Boavista. Finalmente, Rafa e Grimaldo. Rafa está em grande
forma. Se tivesse um pouco mais de discernimento no último passe e soubesse
rematar cruzado (quase nenhum jogador português sabe) seria um jogador
excepcional. Mesmo assim é insubstituível. Grimaldo tem um pé esquerdo que faz obras-primas.
Não é, nunca foi, um primor a defender, mas é o jogador que melhor sabe
interpretar e finalizar as transições ofensivas. Indiscutível na equipa do
Benfica, porventura noutro lugar.
Para finalizar: Jorge Jesus tem de jogar noutro sistema. Se o
não fizer é porque não aprende com os erros. Se os jogadores não são capazes de
interpretar e actuar o sistema do treinador, terá de ser o trinador a pôr em
campo um sistema em consonância com as características dos jogadores. Isto é um
assunto que nem vale a pena discutir. E Jorge Jesus somente tem que escolher
entre aumentar as possibilidades de ganhar ou reforçar as hipóteses de perder.
Simples, portanto.
Jorge Jesus tem de adoptar um sistema de jogo que potencie as
capacidades dos seus atletas, perfilhando um sistema que privilegie as suas ompetências e diminua ou atenue as suas insuficiências.
Isso passa por um maior povoamento do meio campo na zona central e por um maior
resguardo das faixas laterais, deixando na frente um trio muito móvel que possa
na maior parte dos lances de ataque ser numericamente reforçado pelos alas e
por uma subida de, pelo menos, um médio.
Tanto o 4-3-3 como o 3-4-3 servem aqueles objectivos. É uma
questão de treino e de escolha dos jogadores certos para os interpretar, que
não serão os mesmos num e noutro caso.
Com 4-3-3 terá de manter os actuais laterais com Tavares à esquerda, no centro da defesa Otamendi tem de ser substituído por qualquer um
dos actuais centrais do plantel ao qual se juntará Vertonghen, deixando o meio
campo entregue a Pizzi (ou Taarabt), a Gabriel, Weigl (ou Samaris) e Grimaldo,
privilegiando a sua intervenção nos lances atacantes sem deixar de cuidar da
defesa na ajuda a Tavares; na frente Rafa, Darwin e Waldschmit.
Se optar pelo 3-4-3 terá de colocar três centrais Todibo (ou
Ferro ou Samaris), Jardel e Vertonghen; no meio campo Diogo Gonçalves, Gabriel (ou Pizzi),
Weigl e Grimaldo; na frente, Rafa, Darwin e Waldschmit.
Na frente, Seferovic poderá sempre entrar, dependo do jogo e
do modo em que esteja a decorrer; Cervi deveria também ter mais tempo, quer
substituindo Grimaldo num dos sistemas ou Rafa, noutro. Chiquinho tenderia a substituir
Taarabt ou Pizzi, mais excepcionalmente Waldschmit. Pedrinho também terá sempre
possibilidade de entrar e Everton igualmente, dependendo da sua evolução, se cá
ficar, bem como Gonçalo Ramos.
Continuando como até aqui, o Benfica vai continuar a perder o que deveria ganhar!

